2014-11-30
2014-11-25
a ler os outros
Doloroso momento para aqueles que só se sentem vivos quando se espelham em heróis,
estrelas e campeões.
Talvez o povo português mereça as figuras que o governam,
as camarilhas de lacaios, e tenha descido tão baixo na sua auto-estima a ponto
de aceitar que haja nele "donos disto tudo", e espere milagres.
Esses, porém, só em Fátima acontecem. Numa sociedade não há
milagres, já nem sequer revoluções: só pequeninos passos que dão réstias de
esperança de que um dia o país deixe de ser a mina de ouro de
uns quantos, e venha a ser de todos.
J.Rentes de Carvalho, aqui
2014-11-22
2014-11-18
2014-11-14
EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.
Anne Sexton
surripiado daqui
2014-11-08
Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim -- e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...
António Lobo Antunes, aqui
2014-11-02
#praia Norte, Nazaré
2.Estação de Santa Apolónia
Tenho-te ouvido dizeres que preferes o silêncio,
mas eu já não consigo viver sem o som
das marés a crepitar sobre o ar das manhãs.
Não troco a intranquilidade da maresia
pela cadência dos incensos domésticos.
Podes continuar adormecida no teu berço,
dançarei com os músculos contraídos pelo ar.
Antes uma flexão, um amanho de mãos,
a pele, do que essa pacificação de seda.
E sabes, o que me agrada mais é sentir
a respiração a sair-me pelos joelhos,
quando me debruço aos pés da espuma
e uma espécie de vento entra por mim adentro.
Papoilas agitadas, breves, num mar de vento.
Não há mal nenhum em, de vez em quando,
deixarmos a ignorância cair sobre nós
como se fóssemos a terra que recebe
folhas caídas de Outono. Papoilas breves, de vento.
da Estação 2012
Henrique Manuel Bento Fialho
2014-11-01
[Por isso,] ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?
Anselmo Borges, aqui
2014-10-27
2014-10-26
# serra dos mangues, 2014
"A abstracção que aceitamos noutras formas de arte - pintura, escultura, música, poesia - também pode ter lugar no cinema. Temos um ditado persa que diz, quando alguém olha com verdadeira intensidade: "Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados."
Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim | Cinemateca Portuguesa, 2004
2014-10-18
que o ofício de pensar, não nos faça ignorar isto:
Mas ainda não cresceram o suficiente para perceber o obscuro e labiríntico universo da argumentação e da contra-argumentação, que não passa de uma sublimação dos nossos desejos.
2014-10-15
2014-10-13
2014-10-12
uma espiritualidade desligada das tradicionais formas religiosas
Espiritualidad laica significa también – y creo que esto es igualmente
esencial- una espiritualidad emancipada de las formas llamadas
religiosas. Esto es algo bastante nuevo en la cultura y sociedad
occidental, pero es lo que va a ir desarrollándose. Una espiritualidad
que no tiene por qué estar acompañada de creencias, ritos y normas
morales “religiosamente” fundadas, ni inspirada en los textos llamados
tradicionalmente religiosos. Si a uno le inspira una música, esa música
es espiritual. Que sea espiritual no depende de que hable de la Virgen o
sea una misa de Mozart. No depende de esas formas religiosas. Cada vez
más estamos llamados a abrirnos a una espiritualidad no ligada a lo
religioso. Eso significa espiritualidad laica. De la misma manera que en
los ritos fundamentales de la vida (como el nacimiento, la boda, la
muerte) ya se están desligando de formas religiosas tradicionales. La
gente se casa espiritualmente también en la montaña o en el
ayuntamiento. Pueden celebrar espiritualmente el nacimiento de un hijo
sin bautizarlo. La muerte se acompaña y el duelo se hace espiritualmente
sin funerales en la parroquia con misa. Claro que una sociedad laica
tiene el reto de crear sus propias formas desligadas de las
tradicionales formas religiosas pero que sean inspiradoras para esos
momentos fundamentales de la vida. Esto es un reto importante. ¿De qué
se trata? La espiritualidad es el arte de vivir, de respirar, de acoger y
de infundir espíritu, como “luz que penetra las almas y fuente del
mayor consuelo” eso es fundamental y estamos llamados a vivirlo con
formas religiosas o no.
daqui
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