2015-01-10
2015-01-08
2015-01-02
2014-12-30
SENHOR
Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar
Hélène Monette
In Poemas
Tradução de Rosa Alice Branco
a ler os outros:
Há muito perdi a conta dos momentos felizes da minha vida, o que é de bom agouro, mas nunca mais, como nessa tarde, uma semana antes de fazer quinze anos, voltaria a sentir o arroubo de me perder numa massa de povo e conhecer a felicidade da pura união.
José Rentes de Carvalho, aqui
2014-12-28
A ler os outros:
O que se esconde por trás dos números de uma catástrofe. Na morte, tal como na vida, não somos todos iguais. Como sair da formatação destas sensibilidades?
2014-12-23
Natal
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Miguel Torga
Aos resitentes, que ainda insistem em visitar este jardim, só posso desejar um
FELIZ NATAL!
2014-12-20
2014-12-14
2014-12-07
DORES
Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais.
Alexandre O'Neill
In No Reino da Dinamarca, 1958
#imagem - daqui
2014-12-02
Fim do mundo
Há um lamento no mundo,
Como se não houvesse mais o bom Deus,
E a sombra que cai, cortina de chumbo,
Pesa como mausoléus.
Vem, escondamo-nos mais de perto...
A vida jaz nos corações
Como nos féretros.
Ei, beijemo-nos até não mais poder —
Pulsa uma saudade no mundo,
E é disso que temos de morrer.
Else Lasker-Schüler (1869-1945)
2014-11-30
2014-11-25
a ler os outros
Doloroso momento para aqueles que só se sentem vivos quando se espelham em heróis,
estrelas e campeões.
Talvez o povo português mereça as figuras que o governam,
as camarilhas de lacaios, e tenha descido tão baixo na sua auto-estima a ponto
de aceitar que haja nele "donos disto tudo", e espere milagres.
Esses, porém, só em Fátima acontecem. Numa sociedade não há
milagres, já nem sequer revoluções: só pequeninos passos que dão réstias de
esperança de que um dia o país deixe de ser a mina de ouro de
uns quantos, e venha a ser de todos.
J.Rentes de Carvalho, aqui
2014-11-22
2014-11-18
2014-11-14
EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.
Anne Sexton
surripiado daqui
2014-11-08
Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim -- e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...
António Lobo Antunes, aqui
2014-11-02
#praia Norte, Nazaré
2.Estação de Santa Apolónia
Tenho-te ouvido dizeres que preferes o silêncio,
mas eu já não consigo viver sem o som
das marés a crepitar sobre o ar das manhãs.
Não troco a intranquilidade da maresia
pela cadência dos incensos domésticos.
Podes continuar adormecida no teu berço,
dançarei com os músculos contraídos pelo ar.
Antes uma flexão, um amanho de mãos,
a pele, do que essa pacificação de seda.
E sabes, o que me agrada mais é sentir
a respiração a sair-me pelos joelhos,
quando me debruço aos pés da espuma
e uma espécie de vento entra por mim adentro.
Papoilas agitadas, breves, num mar de vento.
Não há mal nenhum em, de vez em quando,
deixarmos a ignorância cair sobre nós
como se fóssemos a terra que recebe
folhas caídas de Outono. Papoilas breves, de vento.
da Estação 2012
Henrique Manuel Bento Fialho
2014-11-01
[Por isso,] ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?
Anselmo Borges, aqui
2014-10-27
2014-10-26
# serra dos mangues, 2014
"A abstracção que aceitamos noutras formas de arte - pintura, escultura, música, poesia - também pode ter lugar no cinema. Temos um ditado persa que diz, quando alguém olha com verdadeira intensidade: "Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados."
Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim | Cinemateca Portuguesa, 2004
2014-10-18
que o ofício de pensar, não nos faça ignorar isto:
Mas ainda não cresceram o suficiente para perceber o obscuro e labiríntico universo da argumentação e da contra-argumentação, que não passa de uma sublimação dos nossos desejos.
2014-10-15
2014-10-13
2014-10-12
uma espiritualidade desligada das tradicionais formas religiosas
Espiritualidad laica significa también – y creo que esto es igualmente
esencial- una espiritualidad emancipada de las formas llamadas
religiosas. Esto es algo bastante nuevo en la cultura y sociedad
occidental, pero es lo que va a ir desarrollándose. Una espiritualidad
que no tiene por qué estar acompañada de creencias, ritos y normas
morales “religiosamente” fundadas, ni inspirada en los textos llamados
tradicionalmente religiosos. Si a uno le inspira una música, esa música
es espiritual. Que sea espiritual no depende de que hable de la Virgen o
sea una misa de Mozart. No depende de esas formas religiosas. Cada vez
más estamos llamados a abrirnos a una espiritualidad no ligada a lo
religioso. Eso significa espiritualidad laica. De la misma manera que en
los ritos fundamentales de la vida (como el nacimiento, la boda, la
muerte) ya se están desligando de formas religiosas tradicionales. La
gente se casa espiritualmente también en la montaña o en el
ayuntamiento. Pueden celebrar espiritualmente el nacimiento de un hijo
sin bautizarlo. La muerte se acompaña y el duelo se hace espiritualmente
sin funerales en la parroquia con misa. Claro que una sociedad laica
tiene el reto de crear sus propias formas desligadas de las
tradicionales formas religiosas pero que sean inspiradoras para esos
momentos fundamentales de la vida. Esto es un reto importante. ¿De qué
se trata? La espiritualidad es el arte de vivir, de respirar, de acoger y
de infundir espíritu, como “luz que penetra las almas y fuente del
mayor consuelo” eso es fundamental y estamos llamados a vivirlo con
formas religiosas o no.
daqui
2014-10-11
2014-10-10
na vida
tanto é preciso a seriedade
quanto o delírio
se tiveres mais do que um pão
vende-o
e compra um lírio
Li Bai
2014-10-09
2014-10-08
por onde se espraia a solidão
Até que ela me conta as palavras finais da ruptura de uma forma que me acordou: ela estava numa cidade, ele noutra. Por telefone? Acabaram por telefone? Diz ela: sim, por sms.
É fantástico como a tecnologia facilita a vida, até a dos que não a vivem.
2014-10-05
2014-10-03
desfazer alguns mitos da maternidade
Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo.
Ana Cássia Rebelo
2014-10-01
Ontem estive a ver o filme Mar Adentro, um filme dramático que me pôs a pensar. Para além do tema do suicídio assistido e das questões morais e éticas que levanta, o que me tocou mais de perto, foram as diferentes perspectivas e consequentes atitudes dos familiares próximos, dos amigos e das duas mulheres (três, diria que a cunhada nutria pelo irmão do marido um amor solícito e verdadeiramente oblativo)apaixonadas pelo tetraplégico Ramón Sampedro.
Na tecedura das diferentes relações, é muito pronunciado o imperativo "tu deves", a começar pela personagem central que quer a todo o custo que lhe seja concedido o direito de decidir pela morte e colocar um fim a trinta anos de sofrimento, sofrido e causado aos seus. Até a igreja institucional aparece (como não podia deixar de ser)a julgar tudo e todos, porque a vida é um dom e, se não de aceita isso, só pode ser por desajuste do próprio ou dos que o rodeiam. A vida é um "pouco" mais complicada do que isso.
É um acto de violência impor a alguém que aceite um sofrimento extremo (uma violência que se acrescenta à que já existe), e é igualmente violento, pretender e impor que alguém aceite que aquele ser que se ama, não quer mais partilhar vida connosco, decidindo morrer. Para de algum modo priorizar necessidades, podemos tentar escolher quem está em situação de maior fragilidade (à primeira vista é o doente que sofre o tormento físico e consequentemente psíquico) mas também pode ser um pai, uma mãe, já fragilizados pela idade. Não quero sugerir nenhuma escolha, até porque acredito que, dentro das diferentes circunstâncias da vida, podemos crescer interiormente e descobrir forças que nem sabíamos que tinhamos. Apenas quero pensar e descobrir modos de lidar com os diferentes imperativos "tu deves..."
2014-09-29
2014-09-27
2014-09-13
de vez em quando dizem-nos num poema
- Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
Hay la espera de mí mismo
Y esta espera es otro modo de presencia
La espera de mi retorno
Yo estoy en otros objetos
Ando en viaje dando un poco de mi vida
A ciertos árboles y a ciertas piedras
Que me han esperado muchos años
Se cansaron de esperarme y se sentaron
Yo no estoy y estoy
Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
Y yo querría el de ellos para expresarlos
He aquí el equívoco el atroz equívoco.
Angustioso lamentable
Me voy adentrando en estas plantas
Voy dejando mis ropas
Se me van cayendo las carnes
Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
Me estoy haciendo árbol.
Cuántas cosas me he ido convirtiendo en otras cosas
Es doloroso y lleno de ternura.
Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
Hay que guardar silencio. Esperar en silencio.
vicente huidobro
2014-09-08
Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.
daqui
2014-08-29
2014-08-07
Ouve, à noite, como a seda se
rasga
e a taça de chá cai ao chão, sem
ruído,
como por magia,
tu que só tens palavras doces para
os mortos
e levas um ramo de flores na mão
à espera da morte
que cai do seu corcel, ferida por
um cavaleiro
que a prende com os seus lábios
brilhantes
e chora pelas noites pensando que
o amavas,
e diz: vem para o jardim, vê
como as estrelas caem
e falemos em sossego para que
ninguém nos ouça
vem, escuta-me, falemos de nossos
móveis
tenho uma rosa tatuada na face e um
bastão
com um punho em forma de pato
e dizem que chove por nós e que a
neve é nossa
e agora que o poema expira,
como uma criança, te digo :
vem, eu fiz um diadema
(sai ao jardim e verás como a
noite nos envolve)
leopoldo maría panero,
traduzido por Luís Costa, aqui
2014-08-02
2014-07-21
2014-07-12
louvado seja Deus que me deu imediatamente o meu lugar sem que eu tenha de ir procurá-lo. e não lhe peço outro.
eu sou Violaine, tenho dezoito anos, o meu pai chama-se Anne Vercors, a minha mãe chama-se Isabel. a minha irmã chama-se Mara, o meu noivo chama-se Tiago. Pronto, acabou-se, não há mais nada a saber.
tudo é perfeitamente claro, tudo está ordenado desde o princípio e estou muito contente. sou livre e não tenho de me afligir com nada, é o pobre homem, que me conduz e que sabe tudo o que é preciso fazer.
Paul Claudel in "a anunciação de Maria"
#imagem Masao Yamamoto
2014-07-09
2014-06-30
E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
(Dylan Thomas, in A Mão a Assinar Este Papel.
Trad.: Fernando Guimarães. Assírio & Alvim)
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.
(Dylan Thomas, in A Mão a Assinar Este Papel.
Trad.: Fernando Guimarães. Assírio & Alvim)
2014-06-15
à espera dos intelectuais de direita
João Pereira Coutinho, Henrique Raposo, Pedro Mexia, João Miguel Tavares ou Pedro Lomba"
Afinal eram cinco os cavaleiros do apocalipse...: "A Peste, a Guerra, a Fome a Morte e o Briefing"...[comenta assim o meu amigo Eduardo Tavares este artigo]
2014-06-14
2014-06-07
2014-05-27
2014-05-25
2014-05-24
2014-05-17
2014-05-11
2014-05-10
O SONHO DE UMA LÍNGUA COMUM
VIII.
Consigo ver-me há anos em Sunion,
doendo-me de um pé infectado, Filoctetes,
em forma de mulher, coxeando o longo caminho,
deitada num promontório sobre o mar escuro,
olhando pelas rochas vermelhas até onde uma espiral silenciosa
de brancura me dizia que uma onda tinha rebentado,
imaginando a força daquela água lá das alturas,
sabendo que suicídio deliberado não era comigo,
mas o tempo todo cuidando, medindo aquela ferida.
Pois bem, tudo isso acabou. A mulher que prezava
o seu sofrimento está morta. Sou a sua descendente.
Amo o tecido cicatrizado que me legou,
mas quero partir daqui contigo
combatendo a tentação de fazer da dor uma carreira.
doendo-me de um pé infectado, Filoctetes,
em forma de mulher, coxeando o longo caminho,
deitada num promontório sobre o mar escuro,
olhando pelas rochas vermelhas até onde uma espiral silenciosa
de brancura me dizia que uma onda tinha rebentado,
imaginando a força daquela água lá das alturas,
sabendo que suicídio deliberado não era comigo,
mas o tempo todo cuidando, medindo aquela ferida.
Pois bem, tudo isso acabou. A mulher que prezava
o seu sofrimento está morta. Sou a sua descendente.
Amo o tecido cicatrizado que me legou,
mas quero partir daqui contigo
combatendo a tentação de fazer da dor uma carreira.
Adrienne Rich in Uma Paciência Selvagem
#imagem - Flor Garduño
#imagem - Flor Garduño
2014-05-06
2014-05-02
2014-05-01
E estas dores, as mais antigas, não deviam
enfim dar-nos mais frutos? Não é tempo de, amando,
nos libertarmos do amado e de, a estremecer, levarmos a melhor:
como a seta vence a corda para, concentrada no desferir-se,
ser mais do que em si mesma. Porque deter-se é em nenhures.
Elegias de Duíno - Primeira
Rainer Maria Rilke
Vasco Graça Moura
imagem, daqui
2014-04-26
2014-04-25
Há quem pense, e talvez com
certa razão, que a mulher deve entrar no mundo da política para, dentro
desse universo, desenvolver as suas ideias e a sua acção. Mas eu penso
que quando uma mulher entra nesse mundo, ela própria é obrigada a
submeter-se a padrões que ameaçam toda a sua natureza, a natureza da sua
cultura. Ela é levada a transigir, torna-se numa cópia daquilo que já é
mau nos homens. Eu penso que a acção da mulher deve desenvolver-se
fora da política do Poder. Uma acção política de contra-poder. Pela
recusa.
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!
Natália Correia
O que é a poesia se não uma magia branca, para fazer recuar as forças tenebrosas que querem destruir a vida?!
Natália Correia
A Natália Correia disse isto, nove anos depois do 25 de Abril de 1974. Há trinta e um anos. Não se pode dizer que a escritora não fosse uma mulher esclarecida e politizada.
Na actual Europa das liberdades, uma mulher com um cargo de poder na política - mais mexerico menos mexerico -, anda deste modo a dar que falar ao mundo.
Haverá um modo próprio e adequado para as mulheres exercerem o poder que os cargos políticos lhes outorgam? Ou, pela própria natureza feminina, as mulheres nunca encontrarão no exercício do poder político a sua identidade feminina? Mas esta tal de identidade feminina é determinada por padrão único ou vai evoluindo, como tudo o que é vivo e consciente de si?
Sem querer precipitar-me nas conclusões, deduzo que não existe um papel feminino e outro masculino de participação e exercício do poder. Existem tantos papéis quantos os intervenientes activos. Sejam homens de "barba rija" ou mulheres belas, como a governante socialista francesa, que acaba por se mostrar frágil e insegura.
Sem querer precipitar-me nas conclusões, deduzo que não existe um papel feminino e outro masculino de participação e exercício do poder. Existem tantos papéis quantos os intervenientes activos. Sejam homens de "barba rija" ou mulheres belas, como a governante socialista francesa, que acaba por se mostrar frágil e insegura.
2014-04-21
2014-04-17
Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
irene lisboa
1892-1958
2014-04-12
2014-04-10
Hora Vermelha
Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.
Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.
Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.
Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.
Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.
Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).
E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.
Sebastião da Gama [no 90º aniversário do nascimento], in 'Cabo da Boa Esperança'
#imagem - Pierre Boucher
2014-04-09
2014-04-05
2014-04-04
2014-04-01
PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO (excerto)
1
E eu disse-me a mim mesma,
naquele dia casual:
Sim,
em cada livro
ou em cada folha que encheres
assinala a tua mudança!
Não é o fato das pintinhas,
com que te vêem
e já te viram,
o que melhor te veste...
Nem o teu gesto irritado,
nem tão-pouco o abatido
que mais te individualizam.
Vai! Vai seguindo,
indiferente e fiel,
pelo fino traço do teu capricho,
um traço solto,
mas severo e sincero...
E assim,
depois das mais breves
e das mais resumidas frases,
do teu laconismo mais acre,
alaga-te em palavras.
Abre-te em palavras!
Que as palavras às bagoadas
te serenem e reconfortem.
Embora não valham nada!
Palavras!
Matilha desordenada e feliz,
lançada atrás de uma pista,
excitante e enganosa...
Irene Lisboa
Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955)
# imagem - Frank Hohenberger
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