2015-03-08

perpetua-se o escândalo





Frantisek Drtikol (1883-1961) Crucified
before 1914 (printed before 1914)
Gelatin silver print
22.7 x 17.3 cm
Städel Museum, Frankfurt am Main
Acquired in 2013 as a gift from Annette and Rudolf Kicken
© VG Bild-Kunst, Bonn 2013
de que têm medo, afinal?

porque a discriminação continua



Por isso, não se entende a luta da Igreja oficial contra o feminismo e o que chamam a ideologia de género. Não têm faltado na Igreja vozes a levantar-se por causa do "empoderamento" das mulheres, acusando o feminismo de procura do poder. Mas é Isabel Gómez-Acebo que tem razão, quando escreve que as raízes do poder se combatem justamente com o poder.

daqui

2015-03-04

celebremos a mudança

 

 

 

 

 

 

Atualização sobre a política de conteúdo pornográfico do Blogger

Esta semana, anunciamos uma mudança na política de pornografia do Blogger que declarava que blogs que distribuíssem imagens de sexo explícito ou nudez ostensiva passariam a ser privados.
Recebemos muitos comentários sobre o fato de fazer uma mudança na política que afeta blogs de longa data e sobre o impacto negativo que isso poderia ter sobre as pessoas que postam conteúdo sexualmente explícito, impedindo-as de expressar suas identidades.
Agradecemos os comentários. Em vez de fazer essa mudança, manteremos nossas políticas existentes.

os passos nossos de cada dia







ou muito me engano, ou Passos Coelho ainda um dia há de ser “dado” na escolas...e eu prefiro pisar um vespeiro, a ler a prosa da "tia".

2015-03-03



-Isabel é pobre. Diz a minha mãe que ela só dispõe de umas raras libras de rendimento anual. Seria interessante torná-la rica.
-Que é que consideras riqueza?
-Ricos são os que podem satisfazer os caprichos da sua imaginação. Isabel possui-a em alto grau.
Henry James, Retrato de uma Senhora, cap. XVIII
retirado daqui: http://ponteirosparados.blogspot.pt/


Vá lá, Henrique, nem todas as mulheres dominam à moda da D. Ângela. E sejamos honestos: num mundo onde o poder masculino se tem afirmado pela força e dureza afectiva, não há grande espaço para a fantasia e imaginação. Ninguém gosta que o outro seja assim, mas o mundo  está ordenado desse modo.


 

2015-03-01

2015-02-28




Já perdeu oportunidade o protesto. Afinal a caça é à pornografia ou a algo inexoravelmente mais pornográfico - o dinheiro. Mas, em despique com o Henrique, por aqui é mesmo sem parra. 
A imagem de hoje, é de um projecto artístico com uma temática de nu feminino diferente: a mulher gorda. A autoria é de Leonard Nimoy, recentemente falecido.
  

O moralismo é sempre um arremedo de vida. Infecta aquilo que se propõe a proteger. Fazer-lhe frente, foi sempre a atitude do teólogo Hans Küng, agora num último desafio: como defender a vida na iminência e nos terrores da morte.

Na vida de todos os dias, o indivíduo pode sentir a pequena felicidade de um instante de satisfação, por exemplo, de uma palavra gentil, de um gesto cordial ou do agradecimento por uma boa ação. Às vezes, também pode conhecer a grande felicidade de uma experiência momentânea exaltante, como o transporte da música, o contato avassalador com a natureza ou o êxtase do amor.

Há apenas uma coisa que a pessoa não é capaz de fazer: prolongar o bom humor. A súplica que Fausto dirige no momento da máxima alegria – "Detém-te, és tão belo" – não é pronunciada por acaso e permanece não ouvida.

À pessoa, no entanto, em vez de uma felicidade perpétua, parecia possível outra coisa: uma serenidade de fundo estável que a impeça de perder a esperança, até mesmo nas situações desesperadas, e que alimente a sua confiança.
Em outras palavras, aceitar, em princípio, a vida assim como ela é, mas sem se resignar a tudo. Uma serenidade de fundo, portanto, permite viver em harmonia, em paz consigo mesmo. Pergunto-me, então: tal atitude não pode ser conservada, mesmo diante da fragilidade e da caducidade humanas, até a morte?


daqui

2015-02-24


lee miller by man ray

ah!...eles são isso



A 23 de março, o Blogger deixa de permitir determinados tipos de conteúdos sexualmente explícitos

«Observação: a nudez ainda será permitida se o conteúdo oferecer um benefício público importante, por exemplo, em contexto artístico, educacional, científico ou de documentário.»


Como protesto, até 23 de Março, vamos ter muitos nus por aqui. Se bloquearem o jardim, já sabem que é por uma boa causa.

2015-02-22

primaveras




As portas que batem

As portas que batem 
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.


O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.




maria judite de Carvalho 

#imagem-
János Szász. Hungarian (1925 - 2005)

2015-02-14




Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver
Serenos transpunhamos o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!



Hermann Hesse. In: Degraus


2015-02-07



«Nunca me cansarei de reconhecer, nem de repetir, que tudo é banal e que só o banal interessa.» 


Irene Lisboa

2015-01-24




As armadilhas da barbárie parecem crescer, provocam enganos, ocultam fatos, sentimentos, emoções. A vingança pequena ou grande é a moeda de troca mais comum. Ofenderam meu povo, falaram mal de meu pai, roubaram meu carro, queimaram minha casa, criticaram minha religião... Acabo com você e com vocês, seus desgraçados! Banalidade do mal, banalidade do bem. O que seria mesmo o bem? As armadilhas que nós preparamos para agir à flor da pele parecem ser a matéria prima de muitas notícias. Fazem os "furos de reportagem”, a caça aos bandidos, o enfrentamento emocionante de perigos, a exposição aos tiros de bandos ilegais, da polícia legal e ilegal... Todos são bandos de meninos brincando de mocinho e bandido carregando armas letais. BUM, Bum, bum, bum ... Mãe me ajuda, Mãe, Mãe, Mãezinha... Onde está você, mãe? O grito pela mãe entrega a terra o último suspiro do filho que se foi. Morreu mais um... Aquele estendido no chão é "meu filho” gritou uma mulher... E aquele que matou e foi depois foi eliminado pela polícia é "o meu” gritou outra. Todos mortos, estupidamente mortos, chacina geral. Saiu em primeira página e hoje o jornal estourou em vendas. Saímos do vermelho porque o sangue dos marginais fez entrar em ‘azul’ as contas do mês. Ficaram vermelhos de sangue os corações das mulheres saudosas de serem mães. Os gritos de ajuda ainda ressoam nos seus ouvidos apesar do silencio dos mortos; continuam lá como eco colado ao tímpano, como dor colada às entranhas, como lágrima interior que não quer estancar. Mas, isso é nada dizem alguns; logo vai passar... E o mundo não vai mudar, pois seguimos sendo lobos uns para os outros.

daqui

2015-01-12





O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos veem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixarmos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
(...)
É uma ilusão ingénua acreditarmos que a nossa imagem é uma simples aparência, por detrás da qual estaria escondida a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam que é o contrário que é verdade: o nosso eu é uma simples aparência, incaptável, indescritível, confusa, ao passo que a única realidade, quase demasiado fácil de captar e de descrever, é a nossa imagem nos olhos dos outros. E o pior é que tu não és senhor da tua  imagem. Começas por tentar pintá-la tu próprio, depois esforças-te por ao menos conservares certa influência sobre ela, controlando-a, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para te transformar para sempre numa caricatura lamentável.


milan kundera in "a imortalidade"



2014-12-30



SENHOR

Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar


Hélène Monette
In Poemas
Tradução de Rosa Alice Branco

a ler os outros:

Há muito perdi a conta dos momentos felizes da minha vida, o que é de bom agouro, mas nunca mais, como nessa tarde, uma semana antes de fazer quinze anos, voltaria a sentir o arroubo de me perder numa massa de povo e conhecer a felicidade da pura união. 

José Rentes de Carvalho, aqui

2014-12-28




A ler os outros:

O que se esconde por trás dos números de uma catástrofe. Na morte, tal como na vida, não somos todos iguais. Como sair da formatação destas sensibilidades?






Até ao fim

Esperarei por ti até que as aves partam
de regresso e regressem de partida

Porque te amei como a água só amou a quilha
desse primeiro barco que singrava
em todos os seus rios um rio desconhecido



Miguel Serras Pereira 
(publicado pelo José Ricardo Nunes no facebook)

2014-12-23



Natal

Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


Miguel Torga



Aos resitentes, que ainda insistem em visitar este jardim, só posso desejar um 
FELIZ NATAL!

2014-12-07




DORES

Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais. 


Alexandre O'Neill
In No Reino da Dinamarca, 1958

#imagem - daqui

2014-12-02




Fim do mundo 

Há um lamento no mundo, 

Como se não houvesse mais o bom Deus,
E a sombra que cai, cortina de chumbo, 
Pesa como mausoléus. 

Vem, escondamo-nos mais de perto... 

A vida jaz nos corações  
Como nos féretros. 

Ei, beijemo-nos até não mais poder — 

Pulsa uma saudade no mundo, 
E é disso que temos de morrer. 
  

Else Lasker-Schüler (1869-1945)

2014-11-30



Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 



Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

2014-11-25

a ler os outros



Doloroso momento para aqueles que só se sentem vivos quando se espelham em heróis, estrelas e campeões.
Talvez o povo português mereça as figuras que o governam, as camarilhas de lacaios, e tenha descido tão baixo na sua auto-estima a ponto de aceitar que haja nele "donos disto tudo", e espere milagres.
Esses, porém, só em Fátima acontecem. Numa sociedade não há milagres, já nem sequer revoluções: só pequeninos passos que dão réstias de esperança de que um dia o país deixe de ser a mina de ouro de uns quantos, e venha a ser de todos.
 
 
 
J.Rentes de Carvalho, aqui

2014-11-14




EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.


Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação. 


Anne Sexton


surripiado daqui

2014-11-08


Outono no parque



Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim -- e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...

António Lobo Antunes, aqui

2014-11-02





 #praia Norte, Nazaré



2.Estação de Santa Apolónia

Tenho-te ouvido dizeres que preferes o silêncio,
mas eu já não consigo viver sem o som
das marés a crepitar sobre o ar das manhãs.
Não troco a intranquilidade da maresia
pela cadência dos incensos domésticos.
Podes continuar adormecida no teu berço,
dançarei com os músculos contraídos pelo ar.
Antes uma flexão, um amanho de mãos,
a pele, do que essa pacificação de seda.
E sabes, o que me agrada mais é sentir
a respiração a sair-me pelos joelhos,
quando me debruço aos pés da espuma
e uma espécie de vento entra por mim adentro.
Papoilas agitadas, breves, num mar de vento.
Não há mal nenhum em, de vez em quando,
deixarmos a ignorância cair sobre nós
como se fóssemos a terra que recebe
folhas caídas de Outono. Papoilas breves, de vento.


da Estação 2012
Henrique Manuel Bento Fialho

2014-11-01




[Por isso,] ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?

Anselmo Borges, aqui 


 

2014-10-26


# serra dos mangues, 2014




"A abstracção que aceitamos noutras formas de arte - pintura, escultura, música, poesia - também pode ter lugar no cinema. Temos um ditado persa que diz, quando alguém olha com verdadeira intensidade: "Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados."

Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim | Cinemateca Portuguesa, 2004

2014-10-12

uma espiritualidade desligada das tradicionais formas religiosas


Espiritualidad laica significa también – y creo que esto es igualmente esencial- una espiritualidad emancipada de las formas llamadas religiosas. Esto es algo bastante nuevo en la cultura y sociedad occidental, pero es lo que va a ir desarrollándose.  Una espiritualidad que no tiene por qué estar acompañada de creencias, ritos y normas morales “religiosamente” fundadas, ni inspirada en los textos llamados tradicionalmente religiosos. Si a uno le inspira una música, esa música es espiritual. Que sea espiritual no depende de que hable de la Virgen o sea una misa de Mozart. No depende de esas formas religiosas. Cada vez más estamos llamados a abrirnos a una espiritualidad no ligada a lo religioso. Eso significa espiritualidad laica. De la misma manera que en los ritos fundamentales de la vida (como el nacimiento, la boda, la muerte) ya se están desligando de formas religiosas tradicionales. La gente se casa espiritualmente también en la montaña o en el ayuntamiento. Pueden celebrar espiritualmente el nacimiento de un hijo sin bautizarlo. La muerte se acompaña y el duelo se hace espiritualmente sin funerales en la parroquia con misa. Claro que una sociedad laica tiene el reto de crear sus propias formas desligadas de las tradicionales formas religiosas pero que sean inspiradoras para esos momentos fundamentales de la vida. Esto es un reto importante. ¿De qué se trata? La espiritualidad es el arte de vivir, de respirar, de acoger y de infundir espíritu, como “luz que penetra las almas y fuente del mayor consuelo” eso es fundamental y estamos llamados a vivirlo con formas religiosas o no.


daqui

2014-10-10

2014-10-08

por onde se espraia a solidão






Até que  ela me conta as palavras  finais da ruptura de uma  forma que me acordou: ela estava numa cidade, ele noutra. Por telefone? Acabaram por telefone? Diz ela: sim, por sms.
É fantástico como a  tecnologia facilita  a vida, até  a dos  que não a vivem.
 

2014-10-03

desfazer alguns mitos da maternidade


Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo. 


Ana Cássia Rebelo

2014-10-01




Ontem estive a ver o filme Mar Adentro, um filme dramático que me pôs a pensar. Para além do tema do suicídio assistido e das questões morais e éticas que levanta, o que me tocou mais de perto, foram as diferentes perspectivas e consequentes atitudes dos familiares próximos, dos amigos e das duas mulheres (três, diria que a cunhada nutria pelo irmão do marido um amor solícito e verdadeiramente oblativo)apaixonadas pelo tetraplégico Ramón Sampedro.

Na tecedura das diferentes relações, é muito pronunciado o imperativo "tu deves", a começar pela personagem central que quer a todo o custo que lhe seja concedido o direito de decidir pela morte e colocar um fim a trinta anos de sofrimento, sofrido e causado aos seus. Até a igreja institucional aparece (como não podia deixar de ser)a julgar tudo e todos, porque a vida é um dom e, se não de aceita isso, só pode ser por desajuste do próprio ou dos que o rodeiam. A vida é um "pouco" mais complicada do que isso. 

É um acto de violência impor a alguém que aceite um sofrimento extremo (uma violência que se acrescenta à que já existe), e é igualmente violento, pretender e impor que alguém aceite que aquele ser que se ama, não quer mais partilhar vida connosco, decidindo morrer. Para de algum modo priorizar necessidades, podemos tentar escolher quem está em situação de maior fragilidade (à primeira vista é o doente que sofre o tormento físico e consequentemente psíquico) mas também pode ser um pai, uma mãe, já fragilizados pela idade. Não quero sugerir nenhuma escolha, até porque acredito que, dentro das diferentes circunstâncias da vida, podemos crescer interiormente e descobrir forças que nem sabíamos que tinhamos. Apenas quero pensar e descobrir modos de lidar com os diferentes imperativos "tu deves..."










2014-09-29



- Acho que toda a gente, primeiro que tudo, se deve afeiçoar à vida.
- Afeiçoar-se à vida mais do que ao sentido da vida?
- Sim, necessariamente, amá-la mais do que à lógica, e só assim se compreenderá também o seu sentido.


Fiódor Dostoiévski in "os irmãos Karamázov"

2014-09-13






de vez em quando dizem-nos num poema


    Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
    Hay la espera de mí mismo
    Y esta espera es otro modo de presencia
    La espera de mi retorno
    Yo estoy en otros objetos
    Ando en viaje dando un poco de mi vida
    A ciertos árboles y a ciertas piedras
    Que me han esperado muchos años
    Se cansaron de esperarme y se sentaron


    Yo no estoy y estoy
    Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
    Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
    Y yo querría el de ellos para expresarlos
    He aquí el equívoco el atroz equívoco.


    Angustioso lamentable
    Me voy adentrando en estas plantas
    Voy dejando mis ropas
    Se me van cayendo las carnes
    Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
    Me estoy haciendo árbol.


    Cuántas cosas me he ido convirtiendo en otras cosas
    Es doloroso y lleno de ternura.


    Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
    Hay que guardar silencio. Esperar en silencio.


    vicente huidobro

2014-09-08




entrementes, fui avó de uma menina, de seu nome Madalena. e o céu ficou mais perto



Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.

daqui 

 

2014-08-07





Ouve, à noite, como a seda se rasga
e a taça de chá cai ao chão, sem ruído,
como por magia,
tu que só tens palavras doces para os mortos
e levas um ramo de flores na mão
à espera da morte
que cai do seu corcel, ferida por um cavaleiro
que a prende com os seus lábios brilhantes
e chora pelas noites pensando que o amavas,
e diz: vem para o jardim, vê como as estrelas caem
e falemos em sossego para que ninguém nos ouça
vem, escuta-me, falemos de nossos móveis
tenho uma rosa tatuada na face e um bastão

                                       com um punho em forma de pato
e dizem que chove por nós e que a neve é nossa
e agora que o poema expira,
como uma criança, te digo :
vem, eu fiz um diadema

(sai ao jardim e verás como a noite nos envolve)

leopoldo maría panero,
traduzido por Luís Costa, aqui













Lina Franziska Fehrmann – Ernst Ludwig Kirchner’s muse between 1908 – 1910