2015-04-25

# Eduardo Gageiro


Já tinha quinze anos, mas não vivi com esta alegria espontânea o 25 de Abril de 1974. Nos dias que se seguiram, fui percebendo o que estava em causa e depressa lhe tomei o gosto. Viva o 25 de Abril, sempre!




Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”

2015-04-18

 

 

Quando é Grande o Poderio da Solidão

Quando é grande o poderio
da solidão, ao seu lado
estanca a aura exterior do brilho
que a fica aí preservando.
Às vezes, outra se avizinha. O sítio
da vizinhança contamina o espaço.
E uma como que luz que antecedesse o espírito
remove o vácuo,
de forma a ele se ir constituindo
espera de verbo. Âmbito
a iluminar-se recinto
aonde as solidões, aproximando-
-se a frequência aumentassem do alto poderio
e estancassem ao bordo granítico do canto.

Fernando Echevarría, in "Figuras"


#imagem-Richard Kalvar,
ITALY. 1978. Rome. Vatican. St. Peter's Square. Conversation around a column.
  

2015-04-14

Zeca Afonso - De não saber o que me espera



Este é um dos Lugares

Este é um dos lugares (ou parte alguma?)
que nunca esperei ocupar ou ver sequer;
alheio em tudo, igual a tantos outros
que breves soube e de que nada guardo.
Um só espaço em verdade me pertence,
- meu berço, meu texto, meu legado:
a casa que é a mãe e viverá
enquanto eu não abdique do seu sangue.
Lá estou e serei: sou as paredes,
a escuridão que a procura e adormece,
sublimando-a tanto como a luz,
trave do seu lar frio e seu apelo,
pelas janelas vendadas defendida.
Batei à porta, chamai do seu jardim
devastado até não me ser senão lembrança:
lá dentro, responderei, embora aqui,
desde sempre à espera de ninguém.

José Bento, in 'Silabário'

2015-04-11

 

 

A Felicidade é um Túnel

                      o domínio
o erotismo do domínio
                      do domínio irrisório
                                                mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

                     vencer
                                  o gelo
                                  o desdém
                                                   veloz

a felicidade é um túnel 



 

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

#imagem - Herbert List, Capri, 1936 

2015-04-09



Vivemos numa Paz de Animais Domésticos

Uma cobra de água numa poça do choupal, a gozar o resto destes calores, e umas meninas histéricas aos gritinhos, cheias de saber que o bicho era tão inofensivo como uma folha.
Por fidelidade a um mandato profundo, o nosso instinto, diante de certos factos, ainda quer reagir. Mas logo a razão acode, e o uivo do plasma acaba num cacarejo convencional. Todos os tratados e todos os preceptores nos explicaram já quantas espécies de ofídios existem e o soro que neutraliza a mordedura de cada um. Herdamos um mundo já quase decifrado, e sabemos de cor as ervas que não devemos comer e as feras que nos não podem devorar. Vivemos numa paz de animais domésticos, vacinados, com os dentes caninos a trincar pastéis de nata, tendo aos pés, submissos, os antigos pesadelos da nossa ignorância. Passamos pela terra como espectros, indo aos jardins zoológicos e botânicos ver, pacata e sàbiamente, em jaulas e canteiros, o que já foi perigo e mistério. E, por mais que nos custe, não conseguimos captar a alma do brinquedo esventrado. O homem selvagem, que teve de escolher tudo, de separar o trigo do joio, de mondar dos seus reflexos o que era manso e o que era bravo, esse é que possuiu verdadeiramente a vida e o mundo. Diante duma natureza inteira e una, também ele tinha necessáriamente de ser inteiro e uno. Sem amigos e sem vizinhos, sozinho contra as árvores e contra as sombras, ele era uma fortaleza em si, tendo na própria pele as ameias. Que totalidade a de um ser que não pode confiar senão em si! Socialmente, seremos assim (e somos, certamente) mais fáceis de conduzir, mais úteis, mais progressivos. Mas, individualmente, a que distância estamos de um homem das cavernas! Que tamanho o dele, a caçar bisões, e que pequenez a nossa, a ganhar taças em torneios de tiro aos pombos!
O nosso gritinho de horror diante de qualquer lesma dá bem a perdição a que chegámos. Civilizámo-nos, mas à custa da nossa mais profunda integridade, dispersando-nos nas coisas que fomos desvendando.
Na cobra de hoje ninguém viu sinceramente veneno ou morte. Vimos todos, sim, o manual que aprendemos no liceu. E o estremecimento das meninas histéricas, eco delido do uivo profundo de pavor e de incerteza dos nossos antepassados, foi dum ridículo tal que respingou outros aspectos e outros recantos da existência. Que espécie de sinceridade profunda, de lealdade incontroversa, haverá, por exemplo, em acreditar em Deus com a bomba atómica na mão?
É bem que o homem faça todas as experiências, inclusivamente consigo. Que liberte a energia das pedras e se liberte também a si de todas as clausuras. Mas os instintos? Poderá, na verdade, ele viver desfalcado dessa força que o fechava como um punho e lhe dava uma coesão igual à dos átomos antes de serem bombardeados? Pelo caminho que levamos, um dia virá em que tudo em nós será consciência, compreensão e sabedoria. Mas nessa mesma hora estaremos desempregados no mundo. Todos saberemos resolver a equação da vida na ardósia negra onde dantes eram as trevas da nossa virgindade criadora, mas talvez já não haja vida, então.

Miguel Torga, in "Diário (1945)"

2015-04-07

 

 

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”


#imagem "Au Hasard Balthazar" R. Bresson 

2015-03-29



O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tornam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"

2015-03-28





Destino é o nome que damos
à nossa comodidade
à covardia do não-risco
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes
(...)


Olga Savary

2015-03-23


março, 2015



Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me o vazio, uma recordação, uma lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente na carne, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa.


Ana Cássia Rebelo,
editada pela Quetzal


 

2015-03-21



A matéria das palavras
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição  
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003

2015-03-18



2ª FEIRA

Vinte e um. Segunda-Feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
que na terra pode haver amor.


E por tédio ou preguiça,
todos acreditaram e assim vivem:
esperam encontros, temem adeus
e cantam canções de amor.


Mas a outros revela-se o enigma,
e o silêncio repousará sobre eles...
Descobri isto por acaso
e desde esse momento sinto-me mal.


  Anna Akhmátova


imagem - 
Alfred Stieglitz
Georgia O’Keeffe 

2015-03-14


# 14/3/2015

Céu 
 
Tenho uma sede imensa,
Mas não é de água…

Tenho uma sede imensa  de beber
Os soluços do sol quando declina,
As carícias azuis do Luar de Agosto,
Os tons rosa da Tarde que se fina…

É que eu seria Poeta, se os bebesse…
Não mais seria o cego de olhos limpos;
Esse que viu a água e a não tocou,
Pelo estranho pudor da sua boca,
Que um dia blasfemou.

E, se eu pudesse beber
Esses longes de mim que vejo e quero,
Em espasmos havia de os mudar
E, num desejo nunca satisfeito,
Iria possuir-te, ó Mar!

Havia de cair, num beijo, sobre ti;
Despir as minhas vestes de serrano,
Tirar de mim aquilo que é humano,
E confundir-me em ti.

Gritem depois,  embora, que eu morri;
Alegre o Mundo o alívio do meu peso;
- que um dia o Sol há-de surgir mais cedo
E o bom menino de olhos azuis,
De quem sou fraco arremedo,
Há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de amor

E tu Menina que eu chamava,
Menina que eu chamava e encontrei
Mas abrasada no amor divino
- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas
É o olhar azul desse menino.
 
Sebastião da Gama
 (in Serra, 39)