2015-03-14
Céu
Tenho uma sede imensa,
Mas não é de água…
Tenho uma sede imensa de beber
Os soluços do sol quando declina,
As carícias azuis do Luar de Agosto,
Os tons rosa da Tarde que se fina…
É que eu seria Poeta, se os bebesse…
Não mais seria o cego de olhos limpos;
Esse que viu a água e a não tocou,
Pelo estranho pudor da sua boca,
Que um dia blasfemou.
E, se eu pudesse beber
Esses longes de mim que vejo e quero,
Em espasmos havia de os mudar
E, num desejo nunca satisfeito,
Iria possuir-te, ó Mar!
Havia de cair, num beijo, sobre ti;
Despir as minhas vestes de serrano,
Tirar de mim aquilo que é humano,
E confundir-me em ti.
Gritem depois, embora, que eu morri;
Alegre o Mundo o alívio do meu peso;
- que um dia o Sol há-de surgir mais cedo
E o bom menino de olhos azuis,
De quem sou fraco arremedo,
Há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de amor
E tu Menina que eu chamava,
Menina que eu chamava e encontrei
Mas abrasada no amor divino
- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas
É o olhar azul desse menino.
Sebastião da Gama
(in Serra, 39)
2015-03-09
2015-03-08
perpetua-se o escândalo
Frantisek Drtikol (1883-1961) Crucified
before 1914 (printed before 1914)
Gelatin silver print
22.7 x 17.3 cm
Städel Museum, Frankfurt am Main
Acquired in 2013 as a gift from Annette and Rudolf Kicken
© VG Bild-Kunst, Bonn 2013
porque a discriminação continua
Por isso, não se entende a luta da Igreja oficial contra o feminismo e o que chamam a ideologia de género. Não têm faltado na Igreja vozes a levantar-se por causa do "empoderamento" das mulheres, acusando o feminismo de procura do poder. Mas é Isabel Gómez-Acebo que tem razão, quando escreve que as raízes do poder se combatem justamente com o poder.
daqui
2015-03-04
celebremos a mudança
Atualização sobre a política de conteúdo pornográfico do Blogger
Esta semana, anunciamos uma mudança na política de pornografia do Blogger que declarava que blogs que distribuíssem imagens de sexo explícito ou nudez ostensiva passariam a ser privados.Recebemos muitos comentários sobre o fato de fazer uma mudança na política que afeta blogs de longa data e sobre o impacto negativo que isso poderia ter sobre as pessoas que postam conteúdo sexualmente explícito, impedindo-as de expressar suas identidades.
Agradecemos os comentários. Em vez de fazer essa mudança, manteremos nossas políticas existentes.
os passos nossos de cada dia
ou muito me engano, ou Passos Coelho ainda um dia há de ser “dado” na escolas...e eu prefiro pisar um vespeiro, a ler a prosa da "tia".
2015-03-03
-Isabel é pobre. Diz a minha mãe que ela só dispõe de umas raras libras de rendimento anual. Seria interessante torná-la rica.
-Que é que consideras riqueza?
-Ricos são os que podem satisfazer os caprichos da sua imaginação. Isabel possui-a em alto grau.
Henry James, Retrato de uma Senhora, cap. XVIIIretirado daqui: http://ponteirosparados.
Vá lá, Henrique, nem todas as mulheres dominam à moda da D. Ângela. E sejamos honestos: num mundo onde o poder masculino se tem afirmado pela força e dureza afectiva, não há grande espaço para a fantasia e imaginação. Ninguém gosta que o outro seja assim, mas o mundo está ordenado desse modo.
2015-03-02
foram vítimas de erro da admnistração e cavalgam a sustentabilidade
Photographer unknown Two women on a carousel Pig
c. 1900
Silver gelatin print
© Collection GERARD LEVY, Paris
2015-03-01
e porque hoje é domingo
esta tive de sacar de um blogue com material para público gay. fotografa-se menos o homem nu. falta de público consumidor?
2015-02-28
Já perdeu oportunidade o protesto. Afinal a caça é à pornografia ou a algo inexoravelmente mais pornográfico - o dinheiro. Mas, em despique com o Henrique, por aqui é mesmo sem parra.
A imagem de hoje, é de um projecto artístico com uma temática de nu feminino diferente: a mulher gorda. A autoria é de Leonard Nimoy, recentemente falecido.
O moralismo é sempre um arremedo de vida. Infecta aquilo que se propõe a proteger. Fazer-lhe frente, foi sempre a atitude do teólogo Hans Küng, agora num último desafio: como defender a vida na iminência e nos terrores da morte.
Na vida de todos os dias, o indivíduo pode sentir a pequena felicidade de um instante de satisfação, por exemplo, de uma palavra gentil, de um gesto cordial ou do agradecimento por uma boa ação. Às vezes, também pode conhecer a grande felicidade de uma experiência momentânea exaltante, como o transporte da música, o contato avassalador com a natureza ou o êxtase do amor.
Há apenas uma coisa que a pessoa não é capaz de fazer: prolongar o bom humor. A súplica que Fausto dirige no momento da máxima alegria – "Detém-te, és tão belo" – não é pronunciada por acaso e permanece não ouvida.
À pessoa, no entanto, em vez de uma felicidade perpétua, parecia possível outra coisa: uma serenidade de fundo estável que a impeça de perder a esperança, até mesmo nas situações desesperadas, e que alimente a sua confiança.
Em outras palavras, aceitar, em princípio, a vida assim como ela é, mas sem se resignar a tudo. Uma serenidade de fundo, portanto, permite viver em harmonia, em paz consigo mesmo. Pergunto-me, então: tal atitude não pode ser conservada, mesmo diante da fragilidade e da caducidade humanas, até a morte?
daqui
2015-02-27
2015-02-26
2015-02-24
ah!...eles são isso
A 23 de março, o Blogger deixa de permitir determinados tipos de conteúdos sexualmente explícitos
«Observação: a nudez ainda será permitida se o conteúdo oferecer um benefício público importante, por exemplo, em contexto artístico, educacional, científico ou de documentário.»
Como protesto, até 23 de Março, vamos ter muitos nus por aqui. Se bloquearem o jardim, já sabem que é por uma boa causa.
2015-02-23
2015-02-22
As portas que batem
As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
maria judite de Carvalho
#imagem-
János Szász. Hungarian (1925 - 2005)
2015-02-21
2015-02-14
Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver
Serenos transpunhamos o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!
Hermann Hesse. In: Degraus
2015-02-07
2015-01-29
2015-01-24
As armadilhas da barbárie parecem crescer, provocam enganos, ocultam fatos, sentimentos, emoções. A vingança pequena ou grande é a moeda de troca mais comum. Ofenderam meu povo, falaram mal de meu pai, roubaram meu carro, queimaram minha casa, criticaram minha religião... Acabo com você e com vocês, seus desgraçados! Banalidade do mal, banalidade do bem. O que seria mesmo o bem? As armadilhas que nós preparamos para agir à flor da pele parecem ser a matéria prima de muitas notícias. Fazem os "furos de reportagem”, a caça aos bandidos, o enfrentamento emocionante de perigos, a exposição aos tiros de bandos ilegais, da polícia legal e ilegal... Todos são bandos de meninos brincando de mocinho e bandido carregando armas letais. BUM, Bum, bum, bum ... Mãe me ajuda, Mãe, Mãe, Mãezinha... Onde está você, mãe? O grito pela mãe entrega a terra o último suspiro do filho que se foi. Morreu mais um... Aquele estendido no chão é "meu filho” gritou uma mulher... E aquele que matou e foi depois foi eliminado pela polícia é "o meu” gritou outra. Todos mortos, estupidamente mortos, chacina geral. Saiu em primeira página e hoje o jornal estourou em vendas. Saímos do vermelho porque o sangue dos marginais fez entrar em ‘azul’ as contas do mês. Ficaram vermelhos de sangue os corações das mulheres saudosas de serem mães. Os gritos de ajuda ainda ressoam nos seus ouvidos apesar do silencio dos mortos; continuam lá como eco colado ao tímpano, como dor colada às entranhas, como lágrima interior que não quer estancar. Mas, isso é nada dizem alguns; logo vai passar... E o mundo não vai mudar, pois seguimos sendo lobos uns para os outros.
daqui
2015-01-12
O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos veem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixarmos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.
(...)
É uma ilusão ingénua acreditarmos que a nossa imagem é uma simples aparência, por detrás da qual estaria escondida a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam que é o contrário que é verdade: o nosso eu é uma simples aparência, incaptável, indescritível, confusa, ao passo que a única realidade, quase demasiado fácil de captar e de descrever, é a nossa imagem nos olhos dos outros. E o pior é que tu não és senhor da tua imagem. Começas por tentar pintá-la tu próprio, depois esforças-te por ao menos conservares certa influência sobre ela, controlando-a, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para te transformar para sempre numa caricatura lamentável.
milan kundera in "a imortalidade"
2015-01-08
2015-01-02
2014-12-30
SENHOR
Senhor, o amor é uma coisa que mete medo
não sabeis pois que se trata de um trabalho difícil
exige uma coragem e uma fé além do improvável
uma humanidade indizível
uma fraternidade cega
dinheiro e garrafas
crianças ao acaso
olhares nem sequer fulminantes
e charcos de céu
e festas campestres
quando o tempo permite
o amor quer idas à pesca, patins e chocolate negro
o amor quer a curva suave e a facilidade
é tão difícil, Senhor
não poderia descrevê-lo
em toda a sua volúpia
para lá dos seus mártires
e dos seus desastres hipócritas
o amor é pleno de alegria
e segue o seu caminho
na névoa dos primeiros passos
na roupa pendurada no inverno
na corda tensa
vai para onde calha
e muito lentamente
lentamente demais o amor segue
como um ouriço do mar oco cheio de areia
como um botão que se deixa por coser
é miserável
é uma pluma
move-se ao vento
quando o coração bate
é esplêndido lavado pela maré
mesmo na maré odiosa
é onda
e é belo
é onda e é belo e cheio de algas
é o silêncio
é a luz
uma coisa assim vulgar
Hélène Monette
In Poemas
Tradução de Rosa Alice Branco
a ler os outros:
Há muito perdi a conta dos momentos felizes da minha vida, o que é de bom agouro, mas nunca mais, como nessa tarde, uma semana antes de fazer quinze anos, voltaria a sentir o arroubo de me perder numa massa de povo e conhecer a felicidade da pura união.
José Rentes de Carvalho, aqui
2014-12-28
A ler os outros:
O que se esconde por trás dos números de uma catástrofe. Na morte, tal como na vida, não somos todos iguais. Como sair da formatação destas sensibilidades?
2014-12-23
Natal
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Miguel Torga
Aos resitentes, que ainda insistem em visitar este jardim, só posso desejar um
FELIZ NATAL!
2014-12-20
2014-12-14
2014-12-07
DORES
Às dores inventadas
Prefere as reais.
Doem muito menos
Ou então muito mais.
Alexandre O'Neill
In No Reino da Dinamarca, 1958
#imagem - daqui
2014-12-02
Fim do mundo
Há um lamento no mundo,
Como se não houvesse mais o bom Deus,
E a sombra que cai, cortina de chumbo,
Pesa como mausoléus.
Vem, escondamo-nos mais de perto...
A vida jaz nos corações
Como nos féretros.
Ei, beijemo-nos até não mais poder —
Pulsa uma saudade no mundo,
E é disso que temos de morrer.
Else Lasker-Schüler (1869-1945)
2014-11-30
2014-11-25
a ler os outros
Doloroso momento para aqueles que só se sentem vivos quando se espelham em heróis,
estrelas e campeões.
Talvez o povo português mereça as figuras que o governam,
as camarilhas de lacaios, e tenha descido tão baixo na sua auto-estima a ponto
de aceitar que haja nele "donos disto tudo", e espere milagres.
Esses, porém, só em Fátima acontecem. Numa sociedade não há
milagres, já nem sequer revoluções: só pequeninos passos que dão réstias de
esperança de que um dia o país deixe de ser a mina de ouro de
uns quantos, e venha a ser de todos.
J.Rentes de Carvalho, aqui
2014-11-22
2014-11-18
2014-11-14
EM CELEBRAÇÃO DO MEU ÚTERO
Tudo em mim é um pássaro.
Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.
Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.
Doce peso,
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
em celebração da mulher que sou
e da alma da mulher que sou
e da criatura central e do seu prazer
canto para ti. Atrevo-me a viver.
Olá, espírito. Olá, taça.
Fixar, cobrir. Cobre o que contém.
Olá, terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.
Cada célula tem uma vida.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Há aqui bastantes para satisfazer uma nação.
Chega que a populaça possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer grupo diria:
Está tudo tão bem este ano que podemos plantar de novo
e pensar noutra colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.
Por isso muitas mulheres cantam em uníssono:
uma numa fábrica de sapatos amaldiçoando a máquina,
uma no aquário cuidando da foca,
uma aborrecida ao volante do seu FORD,
uma cobradora na portagem,
uma no Arizona enlaçando um bezerro,
uma na Rússia com uma perna de cada lado do violoncelo,
uma trocando panelas num fogão no Egipto,
uma pintando da cor da lua as paredes do quarto,
uma no seu leito de morte mas recordando um pequeno almoço,
uma na Tailândia deitada na esteira,
uma limpando o rabo ao seu bebé,
uma olhando pela janela do comboio,
no meio do Wyomming e uma está
em qualquer lado e algumas estão em todo o lado e todas
parecem estar cantando, embora haja quem
não possa cantar uma nota sequer.
Doce peso
em celebração da mulher que sou
deixa-me levar uma echarpe de três metros,
deixa-me tocar o tambor pelas que têm dezanove anos,
deixa-me levar taças para oferecer
(se é isso o que me toca).
deixa-me estudar o tecido cardiovascular,
deixa-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixa-me chupar o pecíolo das flores
(se é isso o que me toca).
Deixa-me imitar certas figuras tribais
(se é isso o que me toca).
Pois o corpo preciso disso,
que me deixes cantar
para a ceia,
para o beijo,
para a correcta
afirmação.
Anne Sexton
surripiado daqui
2014-11-08
Não sei, houve uma altura da minha vida em que lia muito os físicos… Porque é que os grandes físicos, e grandes matemáticos, eram quase todos profundamente crentes? O Einstein dizia “esta coisa de Deus, por exemplo, os meus filhos têm de Deus a ideia de um vertebrado gasoso”. É a ideia que nós temos todos, e que a catequese nos dá. E Deus não é um vertebrado gasoso, como é evidente. Começamos a perceber que é qualquer coisa muito para lá disso. Passei por coisas difíceis nestes últimos anos em que tinha muitas probabilidades de morrer e o que é engraçado é que não tinha medo. Estava tão espantado e indiferente, demasiado absorvido pelo sofrimento físico, que foi brutal. Passei por uma quimioterapia de grande violência. Não sabia se ia viver ou morrer. Só gostava de viver mais uns tempos porque tinha mais uns livros dentro de mim -- e sinto que ainda tenho – e queria escrevê-los. Mas não queria que Deus me salvasse da morte. As noites nos hospitais são tremendas. É um bocado como conta o Proust, ficar à espera da manhã como se a manhã salvasse de alguma coisa e não salva de nada. E depois pensava: tenho vivido tão mal...
António Lobo Antunes, aqui
2014-11-02
#praia Norte, Nazaré
2.Estação de Santa Apolónia
Tenho-te ouvido dizeres que preferes o silêncio,
mas eu já não consigo viver sem o som
das marés a crepitar sobre o ar das manhãs.
Não troco a intranquilidade da maresia
pela cadência dos incensos domésticos.
Podes continuar adormecida no teu berço,
dançarei com os músculos contraídos pelo ar.
Antes uma flexão, um amanho de mãos,
a pele, do que essa pacificação de seda.
E sabes, o que me agrada mais é sentir
a respiração a sair-me pelos joelhos,
quando me debruço aos pés da espuma
e uma espécie de vento entra por mim adentro.
Papoilas agitadas, breves, num mar de vento.
Não há mal nenhum em, de vez em quando,
deixarmos a ignorância cair sobre nós
como se fóssemos a terra que recebe
folhas caídas de Outono. Papoilas breves, de vento.
da Estação 2012
Henrique Manuel Bento Fialho
2014-11-01
[Por isso,] ninguém sabe também o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto. Depois, as palavras deslizam para o sem sentido, quando, perante o cadáver, dizemos, por exemplo: o meu pai está aqui morto, a minha mãe está aqui morta, o meu amigo está aqui morto, a minha amiga está aqui morta... De facto, o que falta é precisamente o sujeito: o pai, a mãe, o amigo, a amiga... Como não faz sentido dizer que os levamos à última morada, que os cremamos ou enterramos. Quem se atreveria a enterrar, a cremar o pai ou a mãe, o amigo, a amiga, o filho? E, quando vamos ao cemitério, que jogo de linguagem é esse que nos leva ao atrevimento de dizer que os vamos visitar? De facto, nos cemitérios, com excepção dos vivos que lá vão, não há ninguém - o Evangelho é cru: ali, só há "ossos e podridão". Assim, pergunta-se: o que há lá então, para que a violação de um cemitério seja um crime hediondo? O que lá há é uma interrogação in-finita, para a qual não há resposta adequada: O que é o Homem? O que é o ser humano?
Anselmo Borges, aqui
2014-10-27
2014-10-26
# serra dos mangues, 2014
"A abstracção que aceitamos noutras formas de arte - pintura, escultura, música, poesia - também pode ter lugar no cinema. Temos um ditado persa que diz, quando alguém olha com verdadeira intensidade: "Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados."
Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim | Cinemateca Portuguesa, 2004
2014-10-18
que o ofício de pensar, não nos faça ignorar isto:
Mas ainda não cresceram o suficiente para perceber o obscuro e labiríntico universo da argumentação e da contra-argumentação, que não passa de uma sublimação dos nossos desejos.
2014-10-15
2014-10-13
2014-10-12
uma espiritualidade desligada das tradicionais formas religiosas
Espiritualidad laica significa también – y creo que esto es igualmente
esencial- una espiritualidad emancipada de las formas llamadas
religiosas. Esto es algo bastante nuevo en la cultura y sociedad
occidental, pero es lo que va a ir desarrollándose. Una espiritualidad
que no tiene por qué estar acompañada de creencias, ritos y normas
morales “religiosamente” fundadas, ni inspirada en los textos llamados
tradicionalmente religiosos. Si a uno le inspira una música, esa música
es espiritual. Que sea espiritual no depende de que hable de la Virgen o
sea una misa de Mozart. No depende de esas formas religiosas. Cada vez
más estamos llamados a abrirnos a una espiritualidad no ligada a lo
religioso. Eso significa espiritualidad laica. De la misma manera que en
los ritos fundamentales de la vida (como el nacimiento, la boda, la
muerte) ya se están desligando de formas religiosas tradicionales. La
gente se casa espiritualmente también en la montaña o en el
ayuntamiento. Pueden celebrar espiritualmente el nacimiento de un hijo
sin bautizarlo. La muerte se acompaña y el duelo se hace espiritualmente
sin funerales en la parroquia con misa. Claro que una sociedad laica
tiene el reto de crear sus propias formas desligadas de las
tradicionales formas religiosas pero que sean inspiradoras para esos
momentos fundamentales de la vida. Esto es un reto importante. ¿De qué
se trata? La espiritualidad es el arte de vivir, de respirar, de acoger y
de infundir espíritu, como “luz que penetra las almas y fuente del
mayor consuelo” eso es fundamental y estamos llamados a vivirlo con
formas religiosas o no.
daqui
2014-10-11
2014-10-10
na vida
tanto é preciso a seriedade
quanto o delírio
se tiveres mais do que um pão
vende-o
e compra um lírio
Li Bai
2014-10-09
2014-10-08
por onde se espraia a solidão
Até que ela me conta as palavras finais da ruptura de uma forma que me acordou: ela estava numa cidade, ele noutra. Por telefone? Acabaram por telefone? Diz ela: sim, por sms.
É fantástico como a tecnologia facilita a vida, até a dos que não a vivem.
2014-10-05
2014-10-03
desfazer alguns mitos da maternidade
Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo.
Ana Cássia Rebelo
2014-10-01
Ontem estive a ver o filme Mar Adentro, um filme dramático que me pôs a pensar. Para além do tema do suicídio assistido e das questões morais e éticas que levanta, o que me tocou mais de perto, foram as diferentes perspectivas e consequentes atitudes dos familiares próximos, dos amigos e das duas mulheres (três, diria que a cunhada nutria pelo irmão do marido um amor solícito e verdadeiramente oblativo)apaixonadas pelo tetraplégico Ramón Sampedro.
Na tecedura das diferentes relações, é muito pronunciado o imperativo "tu deves", a começar pela personagem central que quer a todo o custo que lhe seja concedido o direito de decidir pela morte e colocar um fim a trinta anos de sofrimento, sofrido e causado aos seus. Até a igreja institucional aparece (como não podia deixar de ser)a julgar tudo e todos, porque a vida é um dom e, se não de aceita isso, só pode ser por desajuste do próprio ou dos que o rodeiam. A vida é um "pouco" mais complicada do que isso.
É um acto de violência impor a alguém que aceite um sofrimento extremo (uma violência que se acrescenta à que já existe), e é igualmente violento, pretender e impor que alguém aceite que aquele ser que se ama, não quer mais partilhar vida connosco, decidindo morrer. Para de algum modo priorizar necessidades, podemos tentar escolher quem está em situação de maior fragilidade (à primeira vista é o doente que sofre o tormento físico e consequentemente psíquico) mas também pode ser um pai, uma mãe, já fragilizados pela idade. Não quero sugerir nenhuma escolha, até porque acredito que, dentro das diferentes circunstâncias da vida, podemos crescer interiormente e descobrir forças que nem sabíamos que tinhamos. Apenas quero pensar e descobrir modos de lidar com os diferentes imperativos "tu deves..."
2014-09-29
2014-09-27
2014-09-13
de vez em quando dizem-nos num poema
- Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
Hay la espera de mí mismo
Y esta espera es otro modo de presencia
La espera de mi retorno
Yo estoy en otros objetos
Ando en viaje dando un poco de mi vida
A ciertos árboles y a ciertas piedras
Que me han esperado muchos años
Se cansaron de esperarme y se sentaron
Yo no estoy y estoy
Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
Y yo querría el de ellos para expresarlos
He aquí el equívoco el atroz equívoco.
Angustioso lamentable
Me voy adentrando en estas plantas
Voy dejando mis ropas
Se me van cayendo las carnes
Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
Me estoy haciendo árbol.
Cuántas cosas me he ido convirtiendo en otras cosas
Es doloroso y lleno de ternura.
Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
Hay que guardar silencio. Esperar en silencio.
vicente huidobro
2014-09-08
Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.
daqui
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