2015-06-10






Enquanto os outros peixes vivem tranquilamente debaixo de água, vivendo a vida que podem e sabem viver, o destino do peixe-voador está irremediavelmente preso às suas asas. Por isso o peixe-voador é o que menos vive. Vive na água mas com os olhos presos a uma superfície cheia de luz e de glória à qual jamais pode pertencer, refém e vítima do seu próprio desejo. Os peixes-voadores só podem ser mesmo anjos caídos, condenados, tal como Sísifo, Tântalo ou Prometeu, pela ira de Deus.

daqui







2015-06-09





Eu não conheço os homens. Há já anos
Que os procuro e lhes fujo, mas em vão.
Não os entendo? Ou entendo-os, porventura,
Demasiado? Mais que nestas formas
Evidentes, de áspera carne e osso,
De súbito partidas por uma débil mola
Se os reúne alguém apaixonado,
mortos na lenda entendo-os
Melhor. E deles volto aos vivos,
Fortalecido amigo solitário,
Como quem vai do manancial latente
Ao rio que sem alento desagua.
 
- Luís Cernuda in "Sete Poemas"

#imagem Consuelo Kanaga

2015-06-07

prisão






 

 

 

Da Vida... não Fales Nela

Da vida... não fales nela, 
quando o ritmo pressentes. 
Não fales nela que a mentes. 

Se os teus olhos se demoram 
em coisas que nada são, 
se os pensamentos se enfloram 
em torno delas e não 
em torno de não saber 
da vida... Não fales nela. 

Quanto saibas de viver 
nesse olhar se te congela. 
E só a dança é que dança, 
quando o ritmo pressentes. 

Se, firme, o ritmo avança, 
é dócil a vida, e mansa... 
Não fales nela, que a mentes. 



Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

2015-06-04





Já disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para uma pessoa que ela própria,
E quem caminha duzentos metros sem amar caminha amortalhado para o seu próprio funeral,
E eu ou tu que não possuímos um centavo podemos comprar o melhor que a Terra contém,
E olhar com um só olho ou mostrar um feijão na sua vagem desconcerta
a aprendizagem de todos os tempos,
E não há ofício ou emprego em que um jovem não se possa converter em herói,
E não há delicado objecto que possa servir de eixo às rodas do universo,

E digo a todos os homens e mulheres: que a tua alma permaneça serena e tranquila ante um milhão de universos.
E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação a Deus e à morte).

Escuto e comtemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente,
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.


Walt Whitman in Folhas de Erva
tradução - José Agostinho de Almeida


2015-06-01





V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO 
(Entre a árvore e o vê-la) 

Entre a árvore e o vê-la 
Onde está o sonho? 
Que arco da ponte mais vela 
Deus?... E eu fico tristonho 
Por não saber se a curva da ponte 
É a curva do horizonte... 

Entre o que vive e a vida 
Pra que lado corre o rio? 
Árvore de folhas vestida — 
Entre isso e Árvore há fio? 
Pombas voando — o pombal 
Está-lhes sempre à direita, ou é real? 

Deus é um grande Intervalo, 
Mas entre quê e quê?... 
Entre o que digo e o que calo 
Existo? Quem é que me vê? 
Erro-me... E o pombal elevado 
Está em torno na pomba, ou de lado? 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

2015-05-26






ARDENTE
Há um esforço que eu faço
e não me calo
*
Distancio-me daqueles que me querem
regida por leis que contrariam
o sonho a poesia e a quimera
*
Há um esforço que faço
e não me torno
submetida à força o tempo todo
*
Dou um nó no coração e parto
permanecendo aquela
onde me encontro
*
("Inquietude")
Teresa Horta, aqui

#imagem - aaron siskind


2015-05-20




Epifácio a um capricho morto

Amei
Não QUEM busquei,
Mas o que achei.
O mesmo acaso
Que nos cruzou,
Nos separou.
Assim
O fim
Estava em mim,
Túmulo e berço
Do sempre engano
Par'onde vou.



Reinaldo Ferreira - Dispersos

#imagem-Aaron Siskind


2015-05-15




RISCOS


O nosso quarto habitual. As paredes erguem-se tal qual
como combinado. A janela desdobra-se, completa

com os cortinados fechados. Poderia ser ao princípio da noite ou
ao fim do dia. Penumbra inalterável.

algumas chalaças sobre a luz do dia que menos e menos suporta.
O odor a madeira e a tangerinas muito maduras.

Olha, ali surgem os armários, a cama de casal delineia-se
com os seus lençóis e os cobertores,

a colcha com a mancha exactamente no mesmo sítio. Lá
em baixo recompomos as nossas caras, sentamo-nos à mesa

e a vista enche as ombreiras: quintas, três árvores a abanar.
Sabemos de antemão o que iremos agora comer:

a entrada, que é sempre um desapontamento, o bife e a tarte de maçã.
Estamos mais velhos, entretanto podemos pagar

uma coisa melhor. Aqui chove a maior parte do ano.
O perigo maior envolve-nos com

o mesmo lugar, o mesmo quarto. Arriscamo-nos a ter hábitos,
amamo-nos. Repetimo-nos.


ESTER NAOMI PERQUIN, aqui



#imagem - Édouard Boubat , Sophie, Collioure, France, 1954

2015-05-09









Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, d'este mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando n'alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.
Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da m[inha] inteligência para com o meu senso moral. Hora a hora a (...) que escreve as sátiras surge colérica em mim. Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada.
Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo. Só aqui lh'o registo sobre papel, acanhadamente ainda assim, para que n'alguma parte fique escrito. Sim, fique aqui escrito que amo a pátria funda, (...) doloridamente.
Seja dito assim sucinto, para que fique dito. Nada mais.
Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar.
Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. E aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...)
Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.

Fernando Pessoa, que cito com pudor...mas algum dia tinha de ser.


#imagem-A .H. Jones, 1926

2015-05-07


lagoa de Óbidos, maio de 2015




Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.


Hilda Hilst


 

2015-05-02



DO DESTINO

P'ra calar a paixão fiz voto de silêncio
mas a língua queixosa falou revoltada.
elas partiram, disfarcei o meu amor,
água de tristeza mostrando balbúcios.
acompanhei-as até ao romper da alva,
já a noite perdera a razão de ser.
e atónito ali me deixei ficar:
a manhã roubara-me as estrelas.


-"Poeta do Destino"
- Al- Mu'tamid
- Organização e tradução: Adalberto Alves
#imagem - http://umpardebotas.blogs.sapo.pt/

2015-04-25

# Eduardo Gageiro


Já tinha quinze anos, mas não vivi com esta alegria espontânea o 25 de Abril de 1974. Nos dias que se seguiram, fui percebendo o que estava em causa e depressa lhe tomei o gosto. Viva o 25 de Abril, sempre!




Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”