2015-07-26
2015-07-25
2015-07-21
2015-07-19
O desejo é mau e ilusório, mas, no entanto, sem o desejo não esquadrinharíamos o verdadeiro absoluto, o verdadeiro ilimitado. É preciso ter passado por isto. Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos.
Simone Weil, in "A Gravidade e a Graça"
2015-07-11
DA BIOGRAFIA
"A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mstério no seu próprio nome"
Jorge de Sena
2015-06-30
Eu remava num lago...
Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa sustinha ainda o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da arramação, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar.
Franz Kafka in "Parábolas e fragmentos"
#imagem- Douro, 2015
2015-06-22
2015-06-20
Tive uma vida em ti. Melhor do que
ninguém, sabes que não sou
capaz de escrever poemas de amor. Em contrapartida, uso
e abuso de versos para os demais assuntos.
Poemas de amor é que não.
Há muito que desisti deles, nem sei
porque me ponho agora a falar disto.
Existem metáforas sem fim. Disponho
da linguagem toda. A coisa falha,
a maldita formulação,
assim que lhe chego perto a imagem de que
deveria derivar
um poema que fosse de amor.
E de repente fico só com as palavras,
eu e as palavras e um vazio.
Admito que o meu modo de amar
configure um caso estranho
e pouco substantivo. Ainda amor,
talvez, e talvez
intraduzível. Decerto incompatível
com o sentido honesto das palavras
que vou desalinhando e se mostram
prestáveis para outros fins, excepto para serem
palavras de amor: matéria nuclear, uma ave
de rapina engaiolada no escuro, o que quiseres
imaginar. (...)
José Ricardo Nunes
#imagem - Margarida Araújo
2015-06-11
11.
O Despertador
Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma bebuína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se este desaparecer deixarei de ter trabalho.»
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vê que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que, na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.
43.
Amou tanto
Agora era velha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito. Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com o guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.
Tonino Guerra in Histórias para uma noite de calmaria,
tradução de Mário Rui de Oliveira,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002
2015-06-10
Enquanto os outros peixes vivem tranquilamente debaixo de água, vivendo a vida que podem e sabem viver, o destino do peixe-voador está irremediavelmente preso às suas asas. Por isso o peixe-voador é o que menos vive. Vive na água mas com os olhos presos a uma superfície cheia de luz e de glória à qual jamais pode pertencer, refém e vítima do seu próprio desejo. Os peixes-voadores só podem ser mesmo anjos caídos, condenados, tal como Sísifo, Tântalo ou Prometeu, pela ira de Deus.
daqui
2015-06-09
Eu não conheço os homens. Há já anos
Que os procuro e lhes fujo, mas em vão.
Não os entendo? Ou entendo-os, porventura,
Demasiado? Mais que nestas formas
Evidentes, de áspera carne e osso,
De súbito partidas por uma débil mola
Se os reúne alguém apaixonado,
mortos na lenda entendo-os
Melhor. E deles volto aos vivos,
Fortalecido amigo solitário,
Como quem vai do manancial latente
Ao rio que sem alento desagua.
Que os procuro e lhes fujo, mas em vão.
Não os entendo? Ou entendo-os, porventura,
Demasiado? Mais que nestas formas
Evidentes, de áspera carne e osso,
De súbito partidas por uma débil mola
Se os reúne alguém apaixonado,
mortos na lenda entendo-os
Melhor. E deles volto aos vivos,
Fortalecido amigo solitário,
Como quem vai do manancial latente
Ao rio que sem alento desagua.
- Luís Cernuda in "Sete Poemas"
#imagem Consuelo Kanaga
2015-06-07
Da Vida... não Fales Nela
Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.
Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.
Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.
Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.
Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
2015-06-04
Já disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para uma pessoa que ela própria,
E quem caminha duzentos metros sem amar caminha amortalhado para o seu próprio funeral,
E eu ou tu que não possuímos um centavo podemos comprar o melhor que a Terra contém,
E olhar com um só olho ou mostrar um feijão na sua vagem desconcerta
a aprendizagem de todos os tempos,
E não há ofício ou emprego em que um jovem não se possa converter em herói,
E não há delicado objecto que possa servir de eixo às rodas do universo,
E digo a todos os homens e mulheres: que a tua alma permaneça serena e tranquila ante um milhão de universos.
E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação a Deus e à morte).
Escuto e comtemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente,
Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.
Porque é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa,
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho,
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.
Walt Whitman in Folhas de Erva
tradução - José Agostinho de Almeida
2015-06-01
V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO
(Entre a árvore e o vê-la)
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...
Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida —
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando — o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?
Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado
Está em torno na pomba, ou de lado?
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
2015-05-26
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