2015-08-23
8*Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: «Vamos ao campo.» Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o.9O SENHOR disse a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» Caim respondeu: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» 10*O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim.
Génesis, 4
2015-08-22
2015-08-20
Se o homem não consiste na sua alma - e hoje vêmo-lo claramente -, como sentiu este pedaço de cosmos alojado nele? Se pensamos nisso a que chamamos eu, vêmo-lo rodeado de capas concêntricas cada vez mais distantes e estranhas; primeiro dentro de si mesmo, depois no que já não é o homem. Nelas encontramos a alma. Que lugar ocupa? Qual é a sua função?
maría zambrano in "a metáfora do coração e outros escritos"
tradução josé bento
2015-08-19
2015-08-17
# agosto 2015
Não só sobre vós
Mas também sobre mim as trevas lançaram sombras,
O melhor que tive pareceu-me vago e suspeito,
O que julgava serem os meus grandes pensamentos, não seria afinal tão banal?
Também não sois os únicos que conhecem a maldade,
Eu sou aquele que conheceu a maldade,
Também eu apertei o velho nó da contrariedade,
Também eu conheci a indiscrição, a vergonha, o ressentimento, a mentira, o roubo, a inveja,
Pratiquei a fraude, senti cólera, luxúria, ardentes desejos que não me atrevi a confessar,
Fui travesso, vaidoso, insaciável, vulgar, falso, cobarde, maligno,
O lobo, a serpente, o porco não faltaram em mim,
Nem faltaram o olhar falso, a palavra frívola, o desejo adúltero,
Repulsas, ódios, adiamentos, baixezas, preguiça, nada disso faltou em mim,
Fui um com todos, os dias e os alvoreceres de todos,
Com as suas vozes claras e altas os rapazes chamavam-me pelo meu apelido quando me aproximava ou me viam passar,
Senti os seus braços à volta dos meus ombros, ou a sua carne negligentemente apoiada na minha quando me sentava,
Nas ruas, no ferry, nos comícios, muitos amei sem nunca lhes dizer uma palavra,
Vivi como vivem todos, com o mesmo riso antigo, mastigando, dormindo,
Representando o papel que ainda evocam o actor ou a actriz,
O papel de sempre, o papel que é grande se quisermos que seja grande,
Ou insignificante, ou grande e insignificante se quisermos.
walt whitman in "folhas de erva"
tradução josé agostinho baptista
Assírio & Alvim
2015-08-15
# julho 2015
Consciência Cósmica
Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram a minha fronte.
E as vagas do sofrimento arrastaram-me
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...
João Guimarães Rosa
Consciência Cósmica
Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram a minha fronte.
E as vagas do sofrimento arrastaram-me
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...
João Guimarães Rosa
2015-08-13
2015-08-04
2015-07-26
2015-07-25
2015-07-21
2015-07-19
O desejo é mau e ilusório, mas, no entanto, sem o desejo não esquadrinharíamos o verdadeiro absoluto, o verdadeiro ilimitado. É preciso ter passado por isto. Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos.
Simone Weil, in "A Gravidade e a Graça"
2015-07-11
DA BIOGRAFIA
"A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.
E, como menino que era,
achava um grande mstério no seu próprio nome"
Jorge de Sena
2015-06-30
Eu remava num lago...
Eu remava num lago. Era uma gruta abobadada sem luz do sol, mas estava claro, havia uma luz transparente e homogénea que irradiava da pedra azul pálida. Embora não se sentisse nem uma ponta de vento, as ondas subiam, mas não tanto que isso pudesse representar qualquer perigo para o meu barco, pequeno, mas sólido. Eu continuava a remar calmamente entre as ondas, mas quase nem pensava nos remos, estava todo concentrado em absorver ao máximo o silêncio que dominava o lugar, um silêncio como nunca o tinha sentido em toda a minha vida. Era como um fruto que eu nunca tivesse comido mas fosse o mais suculento de todos. Agora, tinha os olhos fechados e sorvia-o. Mas não sem alguma perturbação. O silêncio era ainda total, mas sentia-se uma perturbação contínua; qualquer coisa sustinha ainda o ruído, mas ele estava à porta, a rebentar de vontade de entrar subitamente. Rodei os olhos na direcção daquele que não estava ali, soltei um dos remos da arramação, pus-me de pé no barco que baloiçava, ameaçando o vazio com o remo. Mas o silêncio persistiu e eu continuei a remar.
Franz Kafka in "Parábolas e fragmentos"
#imagem- Douro, 2015
2015-06-22
2015-06-20
Tive uma vida em ti. Melhor do que
ninguém, sabes que não sou
capaz de escrever poemas de amor. Em contrapartida, uso
e abuso de versos para os demais assuntos.
Poemas de amor é que não.
Há muito que desisti deles, nem sei
porque me ponho agora a falar disto.
Existem metáforas sem fim. Disponho
da linguagem toda. A coisa falha,
a maldita formulação,
assim que lhe chego perto a imagem de que
deveria derivar
um poema que fosse de amor.
E de repente fico só com as palavras,
eu e as palavras e um vazio.
Admito que o meu modo de amar
configure um caso estranho
e pouco substantivo. Ainda amor,
talvez, e talvez
intraduzível. Decerto incompatível
com o sentido honesto das palavras
que vou desalinhando e se mostram
prestáveis para outros fins, excepto para serem
palavras de amor: matéria nuclear, uma ave
de rapina engaiolada no escuro, o que quiseres
imaginar. (...)
José Ricardo Nunes
#imagem - Margarida Araújo
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