2016-01-21





NOMEAR-TE

Não o poema da tua ausência,
somente o esboço, uma fissura num muro,
algo no vento, um sabor amargo.


Alejandra Pizarnik

 

#imagem - Edouard Boubat, Nazaré 1956

2016-01-10



Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.

Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.

Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.

Tonino Guerra in "O Mel"
Trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim


#imagem by Joahan van Keuken, Lucette, 1955

2016-01-07






Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura, pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval 
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.

Seriam gafanhotos?


Tonino Guerra in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim

2016-01-03






O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito. 
Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos. 

Ernesto Sábato, in 'Resistir'



2015-12-22

Os meus votos de Feliz Natal!


 
Presépio

Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...

- Quem as pôs na pintura?


[Sebastião da Gama]

2015-12-19





O Natal tem, no entanto, uma verdade essencial. E essa verdade é tragicamente ilustrativa da condição humana. Se o facto de o Filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da Humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém-nascido não só não tem abrigo condigno como está na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo Menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima, troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este Deus não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Nesta mais extraordinária de todas as ideias (lindíssima, sim) é possível — e preciso — acreditar.

daqui

2015-12-17



Debaixo do chapéu desabado, Acab deixou cair uma lágrima no mar e o Pacífico nunca conteve tanta riqueza como aquela pequena gota de água.


Herman Melville in Moby Dick

2015-12-08






TEORIA DA PRESENÇA DE DEUS

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Ruy Belo, "Todos os Poemas"
Assírio & Alvim



2015-12-06

Insane



Contra quem luta o que a si mesmo fere
Com palavras e rasga entre silêncios
A própria pele com que se apresenta
Perante a teia em contraluz que ilude
Relações, corpos e fragilidades
Tornados presença constante, postos,
Como num jogo, dissimulados
Pelo relevo da planície? Contra
Quem luta quem nunca lutou? Qual é
O peso que equilibra a ilusão
Da violência contida? Só quando
Da dor outra dor nasce o combate
Se torna possível. Quantos nomes
Terá o fim antes de se chamar
Morte? E quantas sombras se entrelaçam
Para conter uma vida suspensa
Do medo de combater por si mesma.


do Rui Almeida (via facebook) 


2015-11-21

um retrato incisivo da realidade católica




O ser humano é finito, carente e mortal. Quando julga encontrar a verdade, a verdade única e toda, encontra o bálsamo da existência: o da verdade salvadora. Como precisa de segurança, de reconhecimento, de superar a carência, a finitude, a mortalidade, não tolera a dúvida, a diversidade, e vai impor "a verdade", justificando-se, nesse propósito, a agressão e a violência.

A. Borges 



 

2015-11-13



"Luz e trevas são a mesma coisa, em ambas reside a mesma energia. Quem possui ouro no seu âmago tem de aprender a trabalhar com ele, para que as outras pessoas consigam ver que, por trás da aparente escuridão, existe um ser de luz, um ser luminoso. A luz vem das trevas, pois é aí que nasce a luz."
"Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever,a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro."


-"Entre o Céu e a Terra"
- Rui Chafes