2016-01-21
2016-01-17
2016-01-10
Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.
Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.
Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.
Tonino Guerra in "O Mel"
Trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim
#imagem by Joahan van Keuken, Lucette, 1955
2016-01-08
2016-01-07
Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura, pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.
Seriam gafanhotos?
Tonino Guerra in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim
2016-01-03
O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito.
Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos.
Ernesto Sábato, in 'Resistir'
2015-12-22
| Os meus votos de Feliz Natal! |
Presépio
Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!
O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)
Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...
- Quem as pôs na pintura?
[Sebastião da Gama]
2015-12-19
O Natal tem, no entanto, uma verdade essencial. E essa verdade é tragicamente ilustrativa da condição humana. Se o facto de o Filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da Humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém-nascido não só não tem abrigo condigno como está na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo Menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima, troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este Deus não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Nesta mais extraordinária de todas as ideias (lindíssima, sim) é possível — e preciso — acreditar.
daqui
2015-12-17
2015-12-08
TEORIA DA PRESENÇA DE DEUS
Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados
E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida
Ruy Belo, "Todos os Poemas"
Assírio & Alvim
2015-12-06
Contra quem luta o que a si mesmo fere
Com palavras e rasga entre silêncios
A própria pele com que se apresenta
Perante a teia em contraluz que ilude
Com palavras e rasga entre silêncios
A própria pele com que se apresenta
Perante a teia em contraluz que ilude
Relações, corpos e fragilidades
Tornados presença constante, postos,
Como num jogo, dissimulados
Pelo relevo da planície? Contra
Tornados presença constante, postos,
Como num jogo, dissimulados
Pelo relevo da planície? Contra
Quem luta quem nunca lutou? Qual é
O peso que equilibra a ilusão
Da violência contida? Só quando
O peso que equilibra a ilusão
Da violência contida? Só quando
Da dor outra dor nasce o combate
Se torna possível. Quantos nomes
Terá o fim antes de se chamar
Se torna possível. Quantos nomes
Terá o fim antes de se chamar
Morte? E quantas sombras se entrelaçam
Para conter uma vida suspensa
Do medo de combater por si mesma.
Para conter uma vida suspensa
Do medo de combater por si mesma.
do Rui Almeida (via facebook)
2015-11-21
O ser humano é finito, carente e mortal. Quando julga encontrar a verdade, a verdade única e toda, encontra o bálsamo da existência: o da verdade salvadora. Como precisa de segurança, de reconhecimento, de superar a carência, a finitude, a mortalidade, não tolera a dúvida, a diversidade, e vai impor "a verdade", justificando-se, nesse propósito, a agressão e a violência.
A. Borges
2015-11-13
"Luz e trevas são a mesma coisa, em ambas reside a mesma energia. Quem possui ouro no seu âmago tem de aprender a trabalhar com ele, para que as outras pessoas consigam ver que, por trás da aparente escuridão, existe um ser de luz, um ser luminoso. A luz vem das trevas, pois é aí que nasce a luz."
"Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever,a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro."
-"Entre o Céu e a Terra"
- Rui Chafes
- Rui Chafes
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