Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
|
2016-02-29
2016-02-27
Quadras da Alma Dorida
Trago deus impresso em mim
no coração e nos rins
A mancha tem a altura
de quarenta quadratins
Estava num profundo êxtase
no seio da divindade
Tudo se esvai. Perdi o
bilhete de identidade
A vida dói. Nada resta.
E diz a alma dorida:
Não creio numa outra vida.
Havia eu de crer nesta?
Ruy Belo
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2016-02-24
2016-02-17
Que memória podemos trazer
da infância
mais avassaladora
do que uma vara de negrilho
esculpida a navalha? Ou
os movimentos de uma cobra d
água guardada num frasco
de tofina? Ou
os assentos de um morris
850? Ou
uma saia travada
que tocámos a tremer de frio?
Vai-se a ver e
quase tudo se passou
fora dos livros
e dos ensinamentos para a vida.
José Carlos Barros - "O Uso dos Venenos"
daqui
#imagem - Graciela Iturbide
2016-02-16
2016-02-14
Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A
elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por
excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis.
Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado
contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os
cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral
particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua
vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a
glória. A glória é absurda por resultar de um ajuntamento. A multidão
cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o até se
transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra
brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia.
Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente
deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de
choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me
engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: «Nunca se é
compreendido, é-se admitido». Matisse repete com frequência esta frase.
Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'
Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'
2016-02-13
Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)
Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».
Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.
Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"
2016-02-06
2016-01-21
2016-01-17
2016-01-10
Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.
Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.
Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.
Tonino Guerra in "O Mel"
Trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim
#imagem by Joahan van Keuken, Lucette, 1955
2016-01-08
2016-01-07
Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura, pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.
Seriam gafanhotos?
Tonino Guerra in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim
2016-01-03
O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito.
Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos.
Ernesto Sábato, in 'Resistir'
2015-12-22
| Os meus votos de Feliz Natal! |
Presépio
Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!
O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)
Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...
- Quem as pôs na pintura?
[Sebastião da Gama]
2015-12-19
O Natal tem, no entanto, uma verdade essencial. E essa verdade é tragicamente ilustrativa da condição humana. Se o facto de o Filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da Humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém-nascido não só não tem abrigo condigno como está na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo Menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima, troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este Deus não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Nesta mais extraordinária de todas as ideias (lindíssima, sim) é possível — e preciso — acreditar.
daqui
Subscrever:
Mensagens (Atom)



