Tive uma vida em ti. Melhor do que
ninguém, sabes que não sou
capaz de escrever poemas de amor. Em contrapartida, uso
e abuso de versos para os demais assuntos.
Poemas de amor é que não.
Há muito que desisti deles, nem sei
porque me ponho agora a falar disto.
Existem metáforas sem fim. Disponho
da linguagem toda. A coisa falha,
a maldita formulação,
assim que lhe chego perto a imagem de que
deveria derivar
um poema que fosse de amor.
E de repente fico só com as palavras,
eu e as palavras e um vazio.
Admito que o meu modo de amar
configure um caso estranho
e pouco substantivo. Ainda amor,
talvez, e talvez
intraduzível. Decerto incompatível
com o sentido honesto das palavras
que vou desalinhando e se mostram
prestáveis para outros fins, excepto para serem
palavras de amor: matéria nuclear, uma ave
de rapina engaiolada no escuro, o que quiseres
imaginar. (...)
José Ricardo Nunes
#imagem - Margarida Araújo














