2016-08-17
2016-08-09
2016-08-04
rendição
«Dou-te o meu corpo maleável para exprimires a tua linguagem. Vê o que fazes de mim».
Maria Gabriela Llansol in PARASCEVE
2016-07-22
Descrever um lugar indescritível é torná-lo inamovível para o resto da minha vida, que certamente decorrerá ao lado da árvore, como sempre tem decorrido no jardim que o pensamento permite. O jardim não é criado pelo pensamento, o jardim permite pensar, tem a sua forma de pensar o pensamento. O Grande Maior tem as mesmas propriedades. Apenas não pensa do mesmo modo. Na verdade, aprofundar a intensidade de viver e deixá-la à natureza, é morrer menos. Falo do meu ponto de vista de visitante, porque ali não havia morte; não sei se não tinham palavras para isso ou se simplesmente não precisavam dela. Havia uma fonte que a seiva molhava a meio de uma Praça - um rasgão no céu -, e, paradoxalmente, seres se sentavam nessa seiva onde, imergindo, tomavam rosto que uma humana como eu reconhecesse. As mãos fremiam. Foi a primeira parte do corpo deles que reconheci. Eu não tinha aceite a sua hospitalidade com a intenção de lhes contar quem era, mas para os ouvir falar sobre a sua própria pessoalidade.
Maria Gabriela Llansol in PARASCEVE
2016-05-24
2016-04-16
uma mulher espera-me
Uma mulher espera-me, tudo ela contém, nada lhe falta,
Mas tudo lhe faltaria se o sexo faltasse, ou lhe faltasse o orvalho do homem certo.
O sexo tudo contém, corpos, almas,
Desígnios, evidências, purezas, doçuras, resultados, promulgações,
Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o material mistério, o sémen,
Todas as esperanças, favores, graças, todas as paixões, amores, belezas, delícias da Terra,
Todos os governos, juízes, deuses, chefes,
Estão no sexo como partes dele, como justificações dele.
O homem de quem gosto sem rubor conhece e aceita as delícias do seu sexo,
A mulher de quem gosto sem rubor conhece e aceita as delícias do seu.
Agora desdenharei as mulheres impassíveis,
Irei e estarei com a que me espera, e com as ardorosas mulheres que me agradam,
Vejo que elas me compreendem e não me rejeitam,
Vejo que me merecem, delas serei o robusto esposo.
Não são em nada inferiores a mim,
As suas faces estão queimadas de sóis e ventos,
As suas carnes têm a antiga flexibilidade e força divinas,
Sabem nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, atacar, retroceder, avançar, resistir, defender-se,
São supremas por direito próprio - são calmas, lúcidas, donas de si mesmas.
Quero-vos perto, mulheres, apertando-vos,
Não vos posso soltar, desejo o vosso bem,
Sou para vós e vós para mim, não só por nós mas também pelos outros,
Em vosso sono dormem heróis e bardos maiores,
O vosso despertar é só para mim e mais ninguém.
Aqui estou, mulheres, abro caminho,
Sou firme, cáustico, enorme, inflexível, mas amo-vos,
Não vos magoo mais do que o necessário,
Dou-vos aquilo que gera filhos e filhas dignos destes Estados, aperto-vos com rudes e lentos músculos,
Fortaleço-me, não vos dou ouvidos,
Não me atrevo a retirar-me até depositar o que durante tanto tempo acumulei em mim.
Desaguo em vós os meus rios contidos,
Aspiro em vós os próximos mil anos,
Enxerto em vós os meus amados rebentos e os da América,
As gotas que destilo em vós darão vida a ágeis raparigas, novos artistas, músicos, cantores,
Os seres que engendro em vós, engendrarão outros seres,
Exigirei homens e mulheres perfeitos do meu pródigo amor,
E que eles se interpenetrem com outros como nós o fazemos agora,
Confiarei nos frutos que das chuvas brotam, como confio nos frutos das chuvas que de mim agora brotam,
Procurarei as amorosas colheitas do nascimento, vida, morte, imortalidade, que amorosamente semeio agora.
Walt Whitman in "Folhas de Erva"
Tradução José Agostinho Baptista,
Assírio & Alvim
2016-04-12
2016-04-09
manter a esperança
Durante muito tempo pensámos que, com a simples insistência em questões
doutrinais, bioé-ticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas
compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimónio mais
como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que
como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar
espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que
podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de
realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se
rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências,
não a pretender substituí-las.
nº37 da exortação "Amoris Laetitia"
2016-03-06
2016-02-29
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
Ana Hatherly
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
|
2016-02-27
Quadras da Alma Dorida
Trago deus impresso em mim
no coração e nos rins
A mancha tem a altura
de quarenta quadratins
Estava num profundo êxtase
no seio da divindade
Tudo se esvai. Perdi o
bilhete de identidade
A vida dói. Nada resta.
E diz a alma dorida:
Não creio numa outra vida.
Havia eu de crer nesta?
Ruy Belo
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2016-02-24
2016-02-17
Que memória podemos trazer
da infância
mais avassaladora
do que uma vara de negrilho
esculpida a navalha? Ou
os movimentos de uma cobra d
água guardada num frasco
de tofina? Ou
os assentos de um morris
850? Ou
uma saia travada
que tocámos a tremer de frio?
Vai-se a ver e
quase tudo se passou
fora dos livros
e dos ensinamentos para a vida.
José Carlos Barros - "O Uso dos Venenos"
daqui
#imagem - Graciela Iturbide
2016-02-16
2016-02-14
Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A
elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por
excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis.
Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado
contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os
cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral
particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua
vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a
glória. A glória é absurda por resultar de um ajuntamento. A multidão
cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o até se
transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra
brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia.
Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente
deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de
choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me
engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: «Nunca se é
compreendido, é-se admitido». Matisse repete com frequência esta frase.
Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'
Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'
2016-02-13
Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)
Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».
Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.
Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"
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