2016-02-27






Quadras da Alma Dorida

Trago deus impresso em mim
no coração e nos rins
A mancha tem a altura
de quarenta quadratins

Estava num profundo êxtase
no seio da divindade
Tudo se esvai. Perdi o
bilhete de identidade

A vida dói. Nada resta.
E diz a alma dorida:
Não creio numa outra vida.
Havia eu de crer nesta?


Ruy Belo
Todos os Poemas
Assírio & Alvim

2016-02-17



Que memória podemos trazer
da infância
mais avassaladora
do que uma vara de negrilho
esculpida a navalha? Ou
os movimentos de uma cobra d
água guardada num frasco
de tofina? Ou
os assentos de um morris
850? Ou
uma saia travada
que tocámos a tremer de frio?
Vai-se a ver e
quase tudo se passou
fora dos livros
e dos ensinamentos para a vida.



  José Carlos Barros - "O Uso dos Venenos"


daqui 

#imagem - Graciela Iturbide

2016-02-14


#fevereiro 2016
Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a glória. A glória é absurda por resultar de um ajuntamento. A multidão cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o até se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: «Nunca se é compreendido, é-se admitido». Matisse repete com frequência esta frase.

Jean Cocteau, in 'Visão Invisível'



 

2016-02-13





Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.



Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

2016-01-21





NOMEAR-TE

Não o poema da tua ausência,
somente o esboço, uma fissura num muro,
algo no vento, um sabor amargo.


Alejandra Pizarnik

 

#imagem - Edouard Boubat, Nazaré 1956

2016-01-10



Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.

Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.

Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.

Tonino Guerra in "O Mel"
Trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim


#imagem by Joahan van Keuken, Lucette, 1955

2016-01-07






Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura, pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval 
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.

Seriam gafanhotos?


Tonino Guerra in "O Mel"
trad. Mário Rui de Oliveira
Assírio & Alvim

2016-01-03






O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autómato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilá-mo-la na nossa mente que não pára de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito. 
Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outorgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os actos. 

Ernesto Sábato, in 'Resistir'



2015-12-22

Os meus votos de Feliz Natal!


 
Presépio

Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...

- Quem as pôs na pintura?


[Sebastião da Gama]

2015-12-19





O Natal tem, no entanto, uma verdade essencial. E essa verdade é tragicamente ilustrativa da condição humana. Se o facto de o Filho de Deus não ter vindo ao mundo num esplendoroso palácio (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da Humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar onde um bebé recém-nascido não só não tem abrigo condigno como está na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo Menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima, troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este Deus não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”. Nesta mais extraordinária de todas as ideias (lindíssima, sim) é possível — e preciso — acreditar.

daqui

2015-12-17



Debaixo do chapéu desabado, Acab deixou cair uma lágrima no mar e o Pacífico nunca conteve tanta riqueza como aquela pequena gota de água.


Herman Melville in Moby Dick

2015-12-08






TEORIA DA PRESENÇA DE DEUS

Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida


Ruy Belo, "Todos os Poemas"
Assírio & Alvim



2015-12-06

Insane



Contra quem luta o que a si mesmo fere
Com palavras e rasga entre silêncios
A própria pele com que se apresenta
Perante a teia em contraluz que ilude
Relações, corpos e fragilidades
Tornados presença constante, postos,
Como num jogo, dissimulados
Pelo relevo da planície? Contra
Quem luta quem nunca lutou? Qual é
O peso que equilibra a ilusão
Da violência contida? Só quando
Da dor outra dor nasce o combate
Se torna possível. Quantos nomes
Terá o fim antes de se chamar
Morte? E quantas sombras se entrelaçam
Para conter uma vida suspensa
Do medo de combater por si mesma.


do Rui Almeida (via facebook) 


2015-11-21

um retrato incisivo da realidade católica




O ser humano é finito, carente e mortal. Quando julga encontrar a verdade, a verdade única e toda, encontra o bálsamo da existência: o da verdade salvadora. Como precisa de segurança, de reconhecimento, de superar a carência, a finitude, a mortalidade, não tolera a dúvida, a diversidade, e vai impor "a verdade", justificando-se, nesse propósito, a agressão e a violência.

A. Borges 



 

2015-11-13



"Luz e trevas são a mesma coisa, em ambas reside a mesma energia. Quem possui ouro no seu âmago tem de aprender a trabalhar com ele, para que as outras pessoas consigam ver que, por trás da aparente escuridão, existe um ser de luz, um ser luminoso. A luz vem das trevas, pois é aí que nasce a luz."
"Aprender a aceitar os limites da linguagem, aprender a alargar os limites da ideia. Ser sempre capaz de mais. A Beleza como dever,a coragem como único caminho para o futuro. Suave medo escuro."


-"Entre o Céu e a Terra"
- Rui Chafes

2015-10-31



"Abrirmo-nos ao que vem pode ser um modo de nos expormos ao porvir ou à vinda do outro, à vinda do que não depende de mim. Trata-se de uma exposição que se sujeita à lei da singularidade do outro. Pode também ser pensada sob a categoria do kairos, do acaso, do aleatório; não são exactamente a mesma coisa, embora possam entrecruzar-se."

"O Gosto do Segredo"
 Jacques Derrida

2015-10-25



“A acumulação de riqueza nas mãos de poucos e o desvio de recursos destinados ao projeto familiar agravam a situação de pobreza de famílias em muitas regiões do mundo” [do relatório do sínodo dos bispos sobre a família.]

Quanto a outros temas que continuam a inquietar, pela forma como são vistos na igreja - homossexualidade, comunhão de recasados, a mulher - ficou tudo em águas de bacalhau, como seria de esperar para quem já não se ilude com reflexões feitas por quem vive à margem do mundo.













# no homem que não sabe que luz tem dentro de si.

Pier Paolo Pasolini

2015-10-21



#Cristina Garcia Rodero. Spain, Galicia. The confession. Pilgrimage of Nuestra Senora de los Milagros de Saavedra. 1980

respigado daqui

2015-10-17





«Quando era pequeno gostava de encostar o ouvido no chão e escutar a terra. Escutar as suas tremuras, imaginar os labirintos dos bichos e das raízes, sentir a ondulação dos magmas profundos, escutar o silêncio da terra. A terra pediu-me os ouvidos, os olhos e as mãos. Depois, o seu apelo feminino pediu-me o coração. À terra devo uma fidelidade primordial, a mais exigente, a mais densa de todas as fidelidades. Agora devo-lhe estas palavras. Elas não nasceram da terra. Nasceram no silêncio da terra.»


nuno higino, in no silêncio da terra

2015-10-10






“Ah. Vontade de a todos sacudir. Como é que suportam esse buraco vazio? Como é possível ir até o fim da própria vida sem perguntar ao menos: por que é que estou vivo?”


Hilda Hilst, em Tu Não Te Moves de Ti.

2015-10-01






Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo -
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.



- Herberto Helder

2015-09-30





#A migrant child leans out of a train window to collect food at the railway station in Tovarnik, Croatia September 29, 2015. REUTERS/Antonio Bronic


2015-09-12




Todos o dias saio em busca de algo diferente,
Demandei-o há muito por todos os atalhos destes campos;
Além nos cumes frescos visito as sombras,
E as fontes; o espírito erra dos cimos para a planície,
Implorando sossego; tal como o animal ferido se refugia nas florestas,
Onde antes repousava pelo meio dia à sua sombra, fora de perigo;
Mas o seu verde abrigo já não lhe dá novas forças,
O espinho cravado fá-lo gemer e tira-lhe o sono,
De nada servem o calor da luz nem a frescura da noite,
E em vão mergulha as feridas nas ondas da torrente.
E tal como é inútil à terra oferecer-lhe a agradável 
Erva curativa e nenhum zéfiro consegue estancar o sangue que fermenta,
O mesmo me acontece, caríssimos! Assim parece, e não haverá ninguém
Que possa aliviar-me da tristeza do meu sonho?




Friedrich Hölderlin - Elegias
Pranto de Ménon por Diotima - 1
  

2015-09-10





É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

eugénio de andrade

2015-08-23





8*Entretanto, Caim disse a Abel, seu irmão: «Vamos ao campo.» Porém, logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e matou-o.9O SENHOR disse a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» Caim respondeu: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» 10*O SENHOR replicou: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. 

Génesis, 4 









"Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre (...). O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a acção de Deus na alma, mas também chegar a encontrá-Lo em todas as coisas."

Laudato si, 233 - Papa Francisco

2015-08-20





Se o homem não consiste na sua alma - e hoje vêmo-lo claramente -, como sentiu este pedaço de cosmos alojado nele? Se pensamos nisso a que chamamos eu, vêmo-lo rodeado de capas concêntricas cada vez mais distantes e estranhas; primeiro dentro de si mesmo, depois no que já não é o homem. Nelas encontramos a alma. Que lugar ocupa? Qual é a sua função?


maría zambrano in "a metáfora do coração e outros escritos"
tradução josé bento


 

2015-08-17



# agosto 2015



Não só sobre vós
Mas também sobre mim as trevas lançaram sombras,
O melhor que tive pareceu-me vago e suspeito,
O que julgava serem os meus grandes pensamentos, não seria afinal tão banal?
Também não sois os únicos que conhecem a maldade,
Eu sou aquele que conheceu a maldade,
Também eu apertei o velho nó da contrariedade,
Também eu conheci a indiscrição, a vergonha, o ressentimento, a mentira, o roubo, a inveja,
Pratiquei a fraude, senti cólera, luxúria, ardentes desejos que não me atrevi a confessar,
Fui travesso, vaidoso, insaciável, vulgar, falso, cobarde, maligno,
O lobo, a serpente, o porco não faltaram em mim,
Nem faltaram o olhar falso, a palavra frívola, o desejo adúltero,
Repulsas, ódios, adiamentos, baixezas, preguiça, nada disso faltou em mim,
Fui um com todos, os dias e os alvoreceres de todos,
Com as suas vozes claras e altas os rapazes chamavam-me pelo meu apelido quando me aproximava ou me viam passar,
Senti os seus braços à volta dos meus ombros, ou a sua carne negligentemente apoiada na minha quando me sentava,
Nas ruas, no ferry, nos comícios, muitos amei sem nunca lhes dizer uma palavra,
Vivi como vivem todos, com o mesmo riso antigo, mastigando, dormindo,
Representando o papel que ainda evocam o actor ou a actriz,
O papel de sempre, o papel que é grande se quisermos que seja grande,
Ou insignificante, ou grande e insignificante se quisermos.

walt whitman in "folhas de erva"
tradução josé agostinho baptista
Assírio & Alvim

2015-08-15

# julho 2015



Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram a minha fronte.
E as vagas do sofrimento arrastaram-me
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado... 

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


João Guimarães Rosa
 

2015-08-13





Que amada eu desejo? - perguntais-me. Eu tenho-a já
Como a desejo: e isto diz, parece-me, muito em poucas palavras.
À beira-mar andava à busca de conchas. Numa delas
Achei uma pérola: trago-a agora junto ao coração.

(J. W. Goethe, in Poemas. Trad.: Paulo Quintela. Fundação Gulbenkian)

2015-08-04

# julho 2015

 

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar.

2015-07-19




O desejo é mau e ilusório, mas, no entanto, sem o desejo não esquadrinharíamos o verdadeiro absoluto, o verdadeiro ilimitado. É preciso ter passado por isto. Infelizes os seres a quem o cansaço subtrai esta energia suplementar que é a fonte do desejo.
Infeliz, também, aquele a quem o desejo cega.
É preciso arrastar o desejo até ao eixo dos pólos. 


Simone Weil, in "A Gravidade e a Graça"

2015-07-11



DA BIOGRAFIA

"A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.
Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mstério no seu próprio nome"


  

Jorge de Sena