2016-12-27



Madrigal

Herdei uma floresta densa onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que os defuntos e os viventes troquem de lugares. É então que a floresta se põe em movimento. Não perdemos ainda toda a esperança. Os maiores crimes continuam ainda por desvendar, malgrado o esforço de tantos polícias.Do mesmo modo, algures nas nossas vidas, há um grande amor por revelar. Herdei uma floresta densa, mas hoje entro numa outra, plena de claridade. Tudo o que vive canta, serpenteia, abana, rasteja! É primavera, e o ar que respiramos é fortíssimo. Tenho um exame na universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.


Tomas Tranströmer, 50 Poemas
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água 

imagem - Artur Pastor, Nazaré

2016-12-23


Que Natal?

Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?

Eugénio Lisboa


[Para quem passa e vê o seu Natal descrito no poema do Eugénio Lisboa, um forte abraço. E para todos os outros também.]

2016-12-21

marginália



afinal o Papa não calça Prada. O problema é isso ser notícia.






 


A FOME

Aqui, onde a mão 
não alcança o interruptor da vida, aqui 
só brilha a solidão.  

Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio, 


aqui a solidão 
não brilha, apenas  
se estorce. 
A fome fala através das feridas.


Luís Miguel Nava. Vulcão
Quetzal, 1994 

2016-12-17

eu também



A partir de um prefácio de Arundhati Roy

Busco compreender o mundo de outra maneira.
Encosto o ouvido no chão
e procuro:

o genocídio não divulgado
a guerra civil não televisionada
o golpe militar escondido.

É o meu destino não acreditar em tudo que leio no jornal.



daqui 



 



Lutou "pelo direito a morrer com dignidade". Morreu a Laura Ferreira dos Santos.

 

2016-12-15

 


Retrato de Mulher


Deve ser para todos os gostos,
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d'água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingénua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalito de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodka.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.


Wislawa Szymborska

2016-12-10