2017-01-31
2017-01-30
Grades da Linguagem
O círculo do olho entre as barras.
Animal cintilante a pálpebra
rema para cima,
liberta um olhar.
Íris, nadadora, sem sonhos e sem brilho:
o céu, cinzento-coração, deve estar por perto.
Inclinada, na ponta do ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.
(Fora eu como tu. Foras tu como eu.
Não estávamos nós
sob uma monção?
Nós somos estranhos.)
A laje. Sobre ela,
muito apertadas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
Bocas cheias de silêncio.
Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação
Relógio D'Água
2017-01-29
2017-01-28
2017-01-27
pessoas
imagem - A woman who fled from clashes in Mosul waits in a car as she goes back to her house after the liberation of their area at Khazer camp, Iraq. REUTERS/Alaa Al-Marjani
2017-01-26
não consigo alcançar qual é o problema do senhor. Talvez porque não creio numa fé "optimista e produtiva".
2017-01-25
2017-01-24
Não és Bom, nem és Mau
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora.
Olavo Bilac, in "Poesias"
2017-01-23
2017-01-22
2017-01-21
[a ler]
O antiamericanismo cego e primário sempre me pareceu um exagero, uma
tolice, uma ilusão, um fator de bloqueio de uma compreensão mais
completa, tolerante e útil do mundo e da humanidade. Muito injusto,
aliás, para os milhões de norte-americanos que, à sua maneira, se têm
batido por uma sociedade melhor e até por um mundo menos instável e
desigual. Por este motivo é particularmente dramático o desastre
politico que se abateu sobre os EUA e sobre o planeta com a eleição de
Donald Trump, o personagem burlesco imposto aos seus concidadãos num
contexto de manipulação da democracia pelos média. O seu americanismo
cavernícola e agressivo contribuirá para revigorar o antiamericanismo
mais visceral. Será difícil escapar-lhe e isso será mau para todos. God bless America. E a nós também.
Rui Bebiano, aqui
António Marujo, num gesto de coragem e de lucidez, fez esta comunicação no congresso dos jornalistas:
Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e
entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse
papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com
interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o
“economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy;
quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade
de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase
só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o
desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando
não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e
que ninguém elegeu – o financeiro e o económico.
[texto completo no blogue do Miguel Marujo]
2017-01-20
Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Ricardo Reis, in "Odes"
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