2017-02-27
Zurique, no hotel a Cegonha
Para Nelly Sachs
Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.
Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.
Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -
Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:
Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo
o que
importa.
Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad-Gilda Lopes Encarnação
2017-02-25
2017-02-23
2017-02-22
Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para
tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de
preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados
possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez
centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta
dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar,
aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se
costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao
contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.
Philip Roth, in 'Pastoral Americana'
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.
Philip Roth, in 'Pastoral Americana'
2017-02-21
2017-02-19
2017-02-17
o essencial
"Falamos tanto, falamos excessivamente. De onde vem esta necessidade de falar? Um tipo que escreva como fala é um chato, um tipo que pense como escreve é um tonto, um tipo que fale como pensa é insensato. Aprecio cada vez mais as formas de comunicação dos bichos, o mundo reduzido a um som que anuncia perigo ou prazer, fome ou assalto. O essencial."
[O Henrique a dar à escrita o que me vai cá dentro, ou seja: estamos uns bons bichos do mato. Mas o "mundo" está inundado de opinião sobre o acessório. Calemo-nos.]
2017-02-16
2017-02-15
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
2017-02-14
¿A qué dios le reza usted? Pues a un dios universal. A un dios que no es católico, musulmán o judío. Las religiones me parecen sectarias y excluyentes. Cada una de ellas está convencida de que las otras no sirven. Por eso, más que de religión, prefiero hablar de espiritualidad, porque esta siempre logra sobrevolar esos sectarismos.
[e muito mais, aqui ]
2017-02-13
2017-02-11
2017-02-10
2017-02-08
aparentemente
As pessoas passeiam cães ao colo, marcam encontros no Tinder, divertem-se no Facebook, voam em lowcost para hotéis baratos, comem antidepressivos ao pequeno-almoço, participam em reuniões e em jantares. E, no entanto, parecem felizes.
retirado daqui
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