2017-02-14




¿A qué dios le reza usted? Pues a un dios universal. A un dios que no es católico, musulmán o judío. Las religiones me parecen sectarias y excluyentes. Cada una de ellas está convencida de que las otras no sirven. Por eso, más que de religión, prefiero hablar de espiritualidad, porque esta siempre logra sobrevolar esos sectarismos.

[e muito mais, aqui ]

2017-02-08





Eu minto mas minha voz não mente
Minha voz soa exactamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa
Se produz a palavra eu

aparentemente




As pessoas passeiam cães ao colo, marcam encontros no Tinder, divertem-se no Facebook, voam em lowcost para hotéis baratos, comem antidepressivos ao pequeno-almoço, participam em reuniões e em jantares. E, no entanto, parecem felizes. 

retirado daqui



 


Poema Agreste

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Glória de Sant'Anna, in 'Poemas do Tempo Agreste'

2017-02-04




É perfeitamente normal que prestemos mais atenção aos sucessos do que aos fracassos, tanto nos percursos individuais como nos grupos a que pertencemos. 
Tenho lido alguns comentários de católicos mais ortodoxos sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese e, sem surpresa, constato como lhes é difícil aceitar que no percurso de qualquer crente, tudo é possível, inclusive a apostasia.

Por outro lado, acomodar Deus em qualquer silêncio, como se fosse um cofre e nos bastasse usar uma chave sempre acessível, é algo para o qual o mesmo filme, ou os desertos que percorremos, torna insano.


 

levanta-se o olhar


2017-02-02





Em quantas coisas não temos de confiar para poder viver o dia a dia sem nos afundarmos pela terra abaixo!
Confiar nos montes de neve que se agarram com força à vertente da montanha sobranceira à aldeia!
Confiar nas promessas de manter segredo e no sorriso de mútuo acordo, confiar em que o telegrama que comunica o acidente não se destina a nós, e que a inesperada pontada aguda não se fará sentir.
Confiar nos eixos das rodas que nos suportam na autoestrada, no meio de um enxame de aço trezentas vezes maior.
E, contudo, nada disto é merecedor de confiança da nossa parte.
Os cinco instrumentos de cordas dizem-nos que podemos confiar noutra coisa.
Em quê? Numa coisa diferente, e vêem connosco um bocado do caminho.
Como quando a meio da escada a luz se apaga, e a mão - confiante - segura o corrimão cego que nas trevas encontra o caminho.


Tomas Tranströmer in "50 Poemas"
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água



2017-02-01

eutanásia



o tema não se compadece com opiniões e fundamentalismos vários porque se impõe algo maior:

"Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama." (retirado daqui)

raízes


2017-01-30

porque não se pode ficar à espera que falem as pedras





"porque existe a ideia falsa de que as mulheres são espancadas ou violadas por uma determinada classe social, por um determinado tipo de homens que não são cultos, que são de um estrato social mais baixo, porque os outros são maravilhosos. Mas não é verdade. Tanto bate ou viola a mulher um médico, um advogado, um político, seja quem for, como um operário, camponês, e por aí fora. A mulher sempre apanhou e sempre foi violentada. As pessoas não encaram a violência do que se passa na cama, no ato sexual com o marido. Ainda hoje isso é muito difícil de perceber."






Grades da Linguagem

O círculo do olho entre as barras.

Animal cintilante a pálpebra
rema para cima,
liberta um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e sem brilho:
o céu, cinzento-coração, deve estar por perto.

Inclinada, na ponta do ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Fora eu como tu. Foras tu como eu.
Não estávamos nós
sob uma monção?
Nós somos estranhos.)

A laje. Sobre ela,
muito apertadas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
Bocas cheias de silêncio.


Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação
Relógio D'Água 


 

2017-01-27

pessoas



imagem - A woman who fled from clashes in Mosul waits in a car as she goes back to her house after the liberation of their area at Khazer camp, Iraq. REUTERS/Alaa Al-Marjani

2017-01-24



Não és Bom, nem és Mau

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora. 



Olavo Bilac, in "Poesias"

2017-01-21

[a ler]

O antiamericanismo cego e primário sempre me pareceu um exagero, uma tolice, uma ilusão, um fator de bloqueio de uma compreensão mais completa, tolerante e útil do mundo e da humanidade. Muito injusto, aliás, para os milhões de  norte-americanos que, à sua maneira, se têm batido por uma sociedade melhor e até por um  mundo menos instável e desigual. Por este motivo é particularmente dramático o desastre politico que se abateu sobre os EUA e sobre o planeta com a eleição de Donald Trump, o personagem burlesco imposto aos seus concidadãos num contexto de manipulação da democracia pelos média. O seu americanismo cavernícola e agressivo contribuirá para revigorar o antiamericanismo mais visceral. Será difícil escapar-lhe e isso será mau para todos. God bless America. E a nós também.

Rui Bebiano, aqui

António Marujo, num gesto de coragem e de lucidez, fez esta comunicação no congresso dos jornalistas:


Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico.


[texto completo no blogue do Miguel Marujo]



2017-01-20



# Douma, Damascus suburb of Ghouta, Syria.
REUTERS/Bassam Khabieh

 

 

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço. 



Ricardo Reis, in "Odes"


2017-01-18



Constantine Manos, Grecia

Radical e Reaccionário  vivem maritalmente como um casamento infeliz, 
formado por ambos, dependentes um do outro.
Mas nós, filhos deles, temos de nos libertar.
Cada problema clama pela sua linguagem própria.
Como o cão de caça segue o rasto deixado pela verdade.



Tomas Tranströmer
50 Poemas
trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água



2017-01-12

"é a solidão que dissipa o outro..."


O que nos torna desprezíveis? Certamente não serão os gestos repetidos dos dias, voltar para trás a verificar se fechámos correctamente as portas, aproveitar nesgas de calor para secar a roupa, passear o animal doméstico, mudar um pneu furado, oferecer ajuda a quem dela nos pareça precisado. O que nos torna desprezíveis é não termos com quem partilhar silêncios, é a solidão que dissipa o outro impondo distâncias, é não estarmos inclinados para jogos de tabuleiro nem fazermos o mínimo esforço na direcção do que se nos opõe.

daqui





Europa 2017


Migrants stand in line to receive free food outside a derelict customs warehouse in Belgrade, Serbia.
REUTERS/Marko Djurica

2017-01-10

Meryl Streep em nome da decência

as redes vivem disso



O parabolano tem pelo menos o mérito de nos fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o lamentará. 

2017-01-06

oh, my baby

quem sabe, sabe





Vós outros andais muito solícitos em redor do próximo, e a vossa solicitude exprime-se em belas palavras. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é apenas o vosso mau amor por vós próprios.
É para fugirdes de vós que andais em volta do próximo, e quereríeis converter isso numa virtude; mas pus a claro o vosso «desinteresse».

F. Nietzsche in "Assim falava Zaratustra

 

2017-01-03

há sempre um livro que me lê



Passaram velozes os meus dez anos de cárcere, já o disse.
De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.
Tínhamos uma longa cerca onde, a certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas, que nos vigiavam misturados connosco e que às vezes até nos dirigiam a palavra.
A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga - melhor: sobre uma espécie de largo onde se cruzavam várias ruas. Em frente - pormenor que se me gravou na memória - havia um quartel amarelo (ou talvez uma prisão).
O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.
Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistência, por grandes gestos misteriosos, pois nada me poderia interessar do que havia para lá dele.
Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me  a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura - enegrecido, lezardento, escalavrado,  - sobre raros indícios duma velha pintura amarela.


Mário de Sá-Carneiro - Verso e Prosa
Assírio & Alvim




2016-12-27



Madrigal

Herdei uma floresta densa onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que os defuntos e os viventes troquem de lugares. É então que a floresta se põe em movimento. Não perdemos ainda toda a esperança. Os maiores crimes continuam ainda por desvendar, malgrado o esforço de tantos polícias.Do mesmo modo, algures nas nossas vidas, há um grande amor por revelar. Herdei uma floresta densa, mas hoje entro numa outra, plena de claridade. Tudo o que vive canta, serpenteia, abana, rasteja! É primavera, e o ar que respiramos é fortíssimo. Tenho um exame na universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.


Tomas Tranströmer, 50 Poemas
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água 

imagem - Artur Pastor, Nazaré

2016-12-23


Que Natal?

Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?

Eugénio Lisboa


[Para quem passa e vê o seu Natal descrito no poema do Eugénio Lisboa, um forte abraço. E para todos os outros também.]

2016-12-21

marginália



afinal o Papa não calça Prada. O problema é isso ser notícia.






 


A FOME

Aqui, onde a mão 
não alcança o interruptor da vida, aqui 
só brilha a solidão.  

Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura dum lenço é a brancura do infortúnio, 


aqui a solidão 
não brilha, apenas  
se estorce. 
A fome fala através das feridas.


Luís Miguel Nava. Vulcão
Quetzal, 1994 

2016-12-17

eu também



A partir de um prefácio de Arundhati Roy

Busco compreender o mundo de outra maneira.
Encosto o ouvido no chão
e procuro:

o genocídio não divulgado
a guerra civil não televisionada
o golpe militar escondido.

É o meu destino não acreditar em tudo que leio no jornal.



daqui 



 



Lutou "pelo direito a morrer com dignidade". Morreu a Laura Ferreira dos Santos.

 

2016-12-15

 


Retrato de Mulher


Deve ser para todos os gostos,
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d'água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingénua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalito de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodka.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.


Wislawa Szymborska

2016-12-10

2016-12-04


Monica Vitti,
Deserto Rosso - Michelangelo Antonioni

talvez esperança


[...]
Oiço dentro de casa que lá fora chove
dizes somente a solitária lágrima
que te humedece os olhos caminhamos
e há em nossos ombros numerosas folhas
Nasço subitamente há mundos no teu rosto
antes de ti ninguém na verdade houve
chove posso dizer pela primeira vez que chove
Esperar por ti não é esperar por ti
esperar por ti é ter talvez esperança
ou é esperar com minudenciosa paciência
e desenhar teu rosto em cada rosto que vejo surgir
na minha alvoroçada vizinhança dos teus passos
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo 
é tudo serem para mim estradas largas nas múltiplas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas árvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te
ver-te é sentir pousar mais que um olhar 
uma mão muito calma sobre a minha vida
ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo

[...) 

Ruy Belo
A margem da Alegria 

 

2016-12-02

libertação

 [Acabei de ler. É mesmo um grande romance. Tocou-me por dentro, por fora, no presente, no passado e no futuro. Ao ler o texto que se segue, fiquei com os olhos húmidos. Imagino (ou não) as lágrimas, a dor, o desespero que geraram, por fim, a libertação.]





 A casa escuta. Respira fundo, fecha os olhos e deixa-se levar na melodia das vozes gravadas no lugar para sempre, com as quais poderá ainda contar quando chegar o fim do mundo.
É noite alta. Só eu. Ninguém mais respira dentro. Ninguém pensa ou fala. O coração bombeia o sangue que circula nas minhas veias, pum-pum, pum-pum, pum-pum. Só o escuto eu e a casa, com as suas grandes orelhas de abano. Toco as suas paredes, estendo-me no chão com a cadela e absorvo a frescura do soalho. Toco o meu corpo, as minhas queridas mamas volumosas, que tombam para o lado quando tiro o sutiã. O meu corpo ainda grande, que passei a amar como é. Tal como é. Que bonito é o meu corpo! Que gorda tão doce! E que poder! Como é que não percebi antes, como é que pude escutá-los todos aqueles anos?! Por que lhes dei ouvidos, sabendo que era eu quem estava certa? A troça recairia sobre o trocista, caso eu nunca a tivesse aceitado como aceitei. Que bela mulher eu sempre fui! Um corpo tão perfeito, tão imponente, como pude desamá-lo tanto?!

Isabela Figueiredo, A Gorda
Caminho