2017-03-25
2017-03-24
Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso____
Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.
É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.
Jaime Rocha
"Mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar
2017-03-23
2017-03-22
a explicação do espiritual
O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.
(Tinos, 28 de Julho de 2014)
Imagem: Ísis em Delos. © Porfírio Silva
daqui
2017-03-20
2017-03-19
as palavras têm o seu peso
quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão
mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa
queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho
onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece morto
tão indolente que parece morto
do olhar do Henrique sobre uma grua numa obra abandonada. Um olhar particular sobre objectos e paisagens quotidianas, mas também sobre a cidade dos homens e os paradoxos que os habitam.
Antes de ler "A GRUA", poder ouvir ontem os versos lidos pelo autor e pelo actor Fernando Mora Ramos, bem como ouvir do Henrique as motivações para a composição poética, é saborear com redobrado deleite cada imagem poética que nos é oferecida generosamente pelo poeta.
2017-03-18
2017-03-17
2017-03-16
2017-03-15
2017-03-14
POEMA DE AMOR
Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nos olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... -
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...
Ruy Cinatti, in Obra Poética, ed. Assírio & Alvim
2017-03-12
se atentássemos a sério nisto, seria bem mais suportável a nossa humanidade
Temos dias em que somos capazes de tudo e outros em que julgamos tudo perdido. O mais corrente é a nossa mediocridade.
Bento Domingues, aqui
2017-03-11
2017-03-09
METAFÍSICA
Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.
Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.
Fiama Hasse Pais Brandão, daqui
2017-03-07
2017-03-06
2017-03-05
2017-02-27
Zurique, no hotel a Cegonha
Para Nelly Sachs
Falávamos do excesso, da
carência. Do Tu
e Contudo-Tu, do
turvo pela claridade, do
judaico, do
teu Deus.
Dis-
so.
No dia de uma ascensão, a
catedral ficava acolá, vinha
com algum ouro sobre as águas.
Falávamos do teu Deus, eu falava
contra ele, eu
deixei o coração que possuía
ter esperança:
na sua palavra suprema, agonizada, na sua
palavra quezilenta -
Teu olho fitou-me, desviou-se,
tua boca
seguiu o olho, eu escutei:
Nós
não sabemos mesmo, sabes,
nós
não sabemos mesmo
o que
importa.
Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad-Gilda Lopes Encarnação
2017-02-25
2017-02-23
2017-02-22
Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para
tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de
preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados
possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez
centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta
dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar,
aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se
costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao
contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.
Philip Roth, in 'Pastoral Americana'
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.
Philip Roth, in 'Pastoral Americana'
2017-02-21
2017-02-19
2017-02-17
o essencial
"Falamos tanto, falamos excessivamente. De onde vem esta necessidade de falar? Um tipo que escreva como fala é um chato, um tipo que pense como escreve é um tonto, um tipo que fale como pensa é insensato. Aprecio cada vez mais as formas de comunicação dos bichos, o mundo reduzido a um som que anuncia perigo ou prazer, fome ou assalto. O essencial."
[O Henrique a dar à escrita o que me vai cá dentro, ou seja: estamos uns bons bichos do mato. Mas o "mundo" está inundado de opinião sobre o acessório. Calemo-nos.]
2017-02-16
2017-02-15
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação directa com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
2017-02-14
¿A qué dios le reza usted? Pues a un dios universal. A un dios que no es católico, musulmán o judío. Las religiones me parecen sectarias y excluyentes. Cada una de ellas está convencida de que las otras no sirven. Por eso, más que de religión, prefiero hablar de espiritualidad, porque esta siempre logra sobrevolar esos sectarismos.
[e muito mais, aqui ]
2017-02-13
2017-02-11
2017-02-10
2017-02-08
aparentemente
As pessoas passeiam cães ao colo, marcam encontros no Tinder, divertem-se no Facebook, voam em lowcost para hotéis baratos, comem antidepressivos ao pequeno-almoço, participam em reuniões e em jantares. E, no entanto, parecem felizes.
retirado daqui
Poema Agreste
Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.
Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.
Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.
Glória de Sant'Anna, in 'Poemas do Tempo Agreste'
para as coisas breves que nos assombram.
Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.
Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.
Glória de Sant'Anna, in 'Poemas do Tempo Agreste'
2017-02-06
2017-02-04
É perfeitamente normal que prestemos mais atenção aos sucessos do que aos fracassos, tanto nos percursos individuais como nos grupos a que pertencemos.
Tenho lido alguns comentários de católicos mais ortodoxos sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese e, sem surpresa, constato como lhes é difícil aceitar que no percurso de qualquer crente, tudo é possível, inclusive a apostasia.
Por outro lado, acomodar Deus em qualquer silêncio, como se fosse um cofre e nos bastasse usar uma chave sempre acessível, é algo para o qual o mesmo filme, ou os desertos que percorremos, torna insano.
2017-02-02
Em quantas coisas não temos de confiar para poder viver o dia a dia sem nos afundarmos pela terra abaixo!
Confiar nos montes de neve que se agarram com força à vertente da montanha sobranceira à aldeia!
Confiar nas promessas de manter segredo e no sorriso de mútuo acordo, confiar em que o telegrama que comunica o acidente não se destina a nós, e que a inesperada pontada aguda não se fará sentir.
Confiar nos eixos das rodas que nos suportam na autoestrada, no meio de um enxame de aço trezentas vezes maior.
E, contudo, nada disto é merecedor de confiança da nossa parte.
Os cinco instrumentos de cordas dizem-nos que podemos confiar noutra coisa.
Em quê? Numa coisa diferente, e vêem connosco um bocado do caminho.
Como quando a meio da escada a luz se apaga, e a mão - confiante - segura o corrimão cego que nas trevas encontra o caminho.
Tomas Tranströmer in "50 Poemas"
Trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água
2017-02-01
eutanásia
o tema não se compadece com opiniões e fundamentalismos vários porque se impõe algo maior:
"Qualquer um que já se tenha visto na
iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe
que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença
inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades?
Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser
esmagadas quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de
quem se ama." (retirado daqui)
2017-01-31
2017-01-30
Grades da Linguagem
O círculo do olho entre as barras.
Animal cintilante a pálpebra
rema para cima,
liberta um olhar.
Íris, nadadora, sem sonhos e sem brilho:
o céu, cinzento-coração, deve estar por perto.
Inclinada, na ponta do ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.
(Fora eu como tu. Foras tu como eu.
Não estávamos nós
sob uma monção?
Nós somos estranhos.)
A laje. Sobre ela,
muito apertadas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
Bocas cheias de silêncio.
Paul Celan in "Não sabemos mesmo o que importa"
Trad. Gilda Lopes Encarnação
Relógio D'Água
2017-01-29
2017-01-28
2017-01-27
pessoas
imagem - A woman who fled from clashes in Mosul waits in a car as she goes back to her house after the liberation of their area at Khazer camp, Iraq. REUTERS/Alaa Al-Marjani
2017-01-26
não consigo alcançar qual é o problema do senhor. Talvez porque não creio numa fé "optimista e produtiva".
2017-01-25
2017-01-24
Não és Bom, nem és Mau
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de acções sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora.
Olavo Bilac, in "Poesias"
2017-01-23
2017-01-22
2017-01-21
[a ler]
O antiamericanismo cego e primário sempre me pareceu um exagero, uma
tolice, uma ilusão, um fator de bloqueio de uma compreensão mais
completa, tolerante e útil do mundo e da humanidade. Muito injusto,
aliás, para os milhões de norte-americanos que, à sua maneira, se têm
batido por uma sociedade melhor e até por um mundo menos instável e
desigual. Por este motivo é particularmente dramático o desastre
politico que se abateu sobre os EUA e sobre o planeta com a eleição de
Donald Trump, o personagem burlesco imposto aos seus concidadãos num
contexto de manipulação da democracia pelos média. O seu americanismo
cavernícola e agressivo contribuirá para revigorar o antiamericanismo
mais visceral. Será difícil escapar-lhe e isso será mau para todos. God bless America. E a nós também.
Rui Bebiano, aqui
António Marujo, num gesto de coragem e de lucidez, fez esta comunicação no congresso dos jornalistas:
Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e
entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse
papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com
interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o
“economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy;
quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade
de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase
só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o
desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando
não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e
que ninguém elegeu – o financeiro e o económico.
[texto completo no blogue do Miguel Marujo]
2017-01-20
Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Ricardo Reis, in "Odes"
2017-01-19
2017-01-18
Radical e Reaccionário vivem maritalmente como um casamento infeliz,
formado por ambos, dependentes um do outro.
Mas nós, filhos deles, temos de nos libertar.
Cada problema clama pela sua linguagem própria.
Como o cão de caça segue o rasto deixado pela verdade.
Tomas Tranströmer
50 Poemas
trad. Alexandre Pastor
Relógio D'Água
2017-01-16
2017-01-15
2017-01-14
Só há demónios no mundo porque nós não os humanizamos. Porque demónios somos todos ou nenhum de nós é.”
Nuno Lopes, actor, aqui
2017-01-12
"é a solidão que dissipa o outro..."
O que nos torna desprezíveis? Certamente não serão os gestos
repetidos dos dias, voltar para trás a verificar se fechámos correctamente as
portas, aproveitar nesgas de calor para secar a roupa, passear o animal
doméstico, mudar um pneu furado, oferecer ajuda a quem dela nos pareça
precisado. O que nos torna desprezíveis é não termos com quem partilhar
silêncios, é a solidão que dissipa o outro impondo distâncias, é não estarmos
inclinados para jogos de tabuleiro nem fazermos o mínimo esforço na direcção do
que se nos opõe.
daqui
daqui
Europa 2017
Reuters /
Monday, January 09, 2017
Migrants stand in line to receive free food outside a derelict customs warehouse in Belgrade, Serbia.
REUTERS/Marko Djurica
REUTERS/Marko Djurica
2017-01-11
2017-01-10
as redes vivem disso
O parabolano tem pelo menos o mérito de nos
fazer pensar os ínvios caminhos do moralismo na actualidade, a
lógica rasteira, abstrusa e capciosa, diria mesmo burra do mais burro que pode
haver, dos detentores da pós-verdade, enfim a palermice, o infantilismo, a
patetice generalizada nas redes que proíbem maminhas ao léu mas aceitam todo o
tipo de dejectos que um esgoto aceita sem que se verifique grandes incómodos
com o estado da situação. De resto, são inúmeras as pessoas que tendem a aderir ao
esgoto com evidente gosto e falta de espírito crítico. O que as torna apenas
ainda mais coerentes com as suas práticas murídeas. Uma coisa é certa, quando morrerem ninguém o
lamentará.
2017-01-09
2017-01-07
2017-01-06
quem sabe, sabe
Vós outros andais muito solícitos em redor do próximo, e a vossa solicitude exprime-se em belas palavras. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo é apenas o vosso mau amor por vós próprios.
É para fugirdes de vós que andais em volta do próximo, e quereríeis converter isso numa virtude; mas pus a claro o vosso «desinteresse».
F. Nietzsche in "Assim falava Zaratustra
2017-01-04
2017-01-03
há sempre um livro que me lê
Passaram velozes os meus dez anos de cárcere, já o disse.
De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.
Tínhamos uma longa cerca onde, a certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas, que nos vigiavam misturados connosco e que às vezes até nos dirigiam a palavra.
A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga - melhor: sobre uma espécie de largo onde se cruzavam várias ruas. Em frente - pormenor que se me gravou na memória - havia um quartel amarelo (ou talvez uma prisão).
O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.
Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistência, por grandes gestos misteriosos, pois nada me poderia interessar do que havia para lá dele.
Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura - enegrecido, lezardento, escalavrado, - sobre raros indícios duma velha pintura amarela.
Mário de Sá-Carneiro - Verso e Prosa
Assírio & Alvim
2017-01-02
2017-01-01
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