2017-04-29
2017-04-28
O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe
quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover
nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do
homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria,
estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a
informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes —
unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma
gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os
momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego.
A emoção não justifica (não pensa) a realidade: acolhe-a como intimação perigosa ou como harmonia afectuosa e cordial, como se o mundo estivesse a enviar sinais para a consciência. Na emoção, a realidade fala directamente com e para a consciência. No acto emotivo, não existe constatação e construção do real, mas acolhimento ameaçante ou cordial.
Miguel Real in "Nova Teoria do Pecado"
2017-04-26
[...]
E nós: espectadores, em toda a parte,
sempre a tudo voltados, nunca fora!
Isso inunda-nos. Pomo-lo em ordem. Cai.
Damos-lhe ordem de novo e então ruímos.
Quem nos virou assim do avesso, que
o que quer que façamos temos ar
de alguém que se vai embora? Como esse
que se volta na colina mais distante
para ver todo o vale inda uma vez -,
assim vivemos sempre num adeus.
Rainer Maria Rilke, da 8ª elegia
Trad. Vasco Graça Moura
2017-04-25
mas faria muito bem o Tony se, antes de rezar, meditasse nisto:
Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termo grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.
uma contradição nada incomum
uma:
“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”
e outra:
“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”
Daqui
“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”
e outra:
“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”
Daqui
2017-04-24
NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim
2017-04-22
2017-04-21
2017-04-20
2017-04-18
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