2017-06-10
2017-06-08
2017-06-07
As árvores
Pois nós somos como troncos de árvores na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório.
Franz Kafka in "Parábolas e Fragmentos"
Trad. João Barrento
Ed. Assírio & Alvim
#imagem - Harry Callahan, Chicago, 1950
2017-06-06
Caminharemos de Olhos Deslumbrados
Caminharemos de olhos deslumbradosE braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.
Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.
No ritual do verão descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.
Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!
Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.
Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.
Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.
Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'
2017-06-01
É inenarrável esperar a morte em Portugal.
Há meia dúzia de meses que acompanho a luta da C. para resistir à morte que, entre internamentos e convalescenças em casa, não para de a rondar, como na segunda feira dizia, sem já conseguir reconhecer-me.
A C. é a prova provada de que não é o doente, e sobretudo o doente idoso, que está no cerne das decisões, das políticas de saúde em Portugal.
2017-05-31
2017-05-29
«Há artistas que trabalham de dentro para fora, há artistas que trabalham de fora para dentro. Os primeiros trazem um imenso mundo dentro de si e vivem na necessidade imparável e na urgência de o trazer para fora; outros limitam-se a recolher os elementos do mundo e a reorganizá-los à sua maneira. Só podemos oferecer o que nos cabe na mão.»
do atavismo
Blues dos refugiados
Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.
Já tivemos um país, que nos parecia bem,
Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:
Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.
Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,~
E todas as Primaveras de novo floreja,
Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.
O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:
«Não têm passaporte, estão mortos oficialmente.»
Mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.
Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;
Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.
Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?
Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:
«Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.»
Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.
Pensei ouvir trovões no céu a tremer;
Era Hitler na Europa, dizendo: «Devem morrer.»
Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar em nós.
Vi um cão de água à lapela de um fato,
E uma porta abrir-se para que entrasse um gato:
Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.
Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,
na água vi os peixes a nadar livremente:
Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.
Andei pela floresta, vi pássaros empoleirados,
Não tinham políticos e piavam os seus trinados,
Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.
Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,
E milhares de janelas, portas aos milhares,
E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.
Cheguei a uma campina com a neve tombando,
Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;
Procurando-nos aos dois, amor, procurando-nos aos dois.
W. H. Auden in "Outro Tempo"
Trad. Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água
A manchete de um jornal diário, informa que o SEF pretende, com a devida pressão de vários escritórios de advogados, acelerar a emissão dos "vistos Gold". Conceder cidadania a troco de dinheiro, de proveniência duvidosa, muitas vezes, é algo a que um Governo de esquerda se deveria privar.
2017-05-28
2017-05-27
2017-05-26
2017-05-25
Cita-se Simone Weil e a seguir vale tudo:
Esse é o momento de ser conseqüente. E de exigir o equilíbrio imediato da balança dos poderes. Agora, e não dentro de 170 anos. É tempo de retirar aos opressores o poder de oprimir. E, na democracia, o poder se exerce pelo voto. A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração. Todos os dados demonstram que apenas 20 anos seria o suficiente, e os benefícios seriam universais, e não apenas para mulheres.
2017-05-22
por Ouologuem Yambo
Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas
Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates
Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos
Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém
As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados
Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as
Minhas gengivas
Vivam os tomates
Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates
Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes
Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça
Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso
Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado
Eu gritei vivam os tomates
Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro
Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga
Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates
rapinado daqui
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974
Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas
Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates
Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos
Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém
As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados
Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as
Minhas gengivas
Vivam os tomates
Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates
Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes
Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça
Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso
Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado
Eu gritei vivam os tomates
Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro
Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga
Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates
rapinado daqui
2017-05-21
2017-05-20
2017-05-18
2017-05-17
2017-05-14
[...]somos cristãos que oram demasiado pouco. Para isso também contribui a imaturidade de só sabermos dizer a Deus aquilo que sentimos - somos escravos da nossa própria espontaneidade (que não nos tem levado longe na nossa vida de oração). Queremos mais do que isto.
Tiago Cavaco, aqui
2017-05-12

MUSÉE DES BEAUX ARTS
Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres;perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lagona orla da floresta;
Nunca esqueceram
Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.
No Ícaro de Breughel, por exemplo, como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.
W. H. Auden in "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água
2017-05-11
2017-05-10
2017-05-08
2017-05-07
Promessa
Na clara paisagem essencial e pobre
Viverei segundo a lei da liberdade
Segundo a lei da exacta eternidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
2017-05-06
A mensagem de Deus não é uma mensagem para hoje, é uma mensagem para depois. [Fernando Santos, treinador]
Nestes dias de exaltação do catolicismo, seria bom que surgissem vozes a falar de uma mensagem atemporal, que não se esgota nos acontecimentos imediatos e mediatizados.
Mas continuar a insistir que a mensagem de Deus não é para viver no dia a dia, pelos homens e mulheres que por ela se sentem tocados, é a manifestação de uma igreja fechada nela própria e desligada da vida.
2017-05-05
Porque o Melhor, Enfim
Porque o melhor, enfim,É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!
_ Sorrindo interiormente,
Co'as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. _
Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.
Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...
Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,
Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...
Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...
E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.
Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
2017-05-04
2017-05-03
uma vez sem exemplo
Diz-se que "não se cospe no prato em que se comeu" (quem acompanha este blogue desde o início percebe a que me refiro), mas é com indiferença total que vou lendo e vendo as diferentes notícias sobre Fátima -, visita do papa, canonização das crianças Francisco e Jacinta e demais folclore. Deus me guarde no caminho do deserto...e me permita saborear o silêncio dentro e fora de mim. Ámen!
2017-04-29
2017-04-28
O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe
quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover
nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do
homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria,
estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a
informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes —
unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma
gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os
momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego.
A emoção não justifica (não pensa) a realidade: acolhe-a como intimação perigosa ou como harmonia afectuosa e cordial, como se o mundo estivesse a enviar sinais para a consciência. Na emoção, a realidade fala directamente com e para a consciência. No acto emotivo, não existe constatação e construção do real, mas acolhimento ameaçante ou cordial.
Miguel Real in "Nova Teoria do Pecado"
2017-04-26
[...]
E nós: espectadores, em toda a parte,
sempre a tudo voltados, nunca fora!
Isso inunda-nos. Pomo-lo em ordem. Cai.
Damos-lhe ordem de novo e então ruímos.
Quem nos virou assim do avesso, que
o que quer que façamos temos ar
de alguém que se vai embora? Como esse
que se volta na colina mais distante
para ver todo o vale inda uma vez -,
assim vivemos sempre num adeus.
Rainer Maria Rilke, da 8ª elegia
Trad. Vasco Graça Moura
2017-04-25
mas faria muito bem o Tony se, antes de rezar, meditasse nisto:
Todos nós damos vontade de rir. Somos uns pobres diabos. Usando um termo grosseiro: muita cagança, muita cagança e para quê? Somos pequeníssimos. Não é que uma pessoa tenha que aceitar a sua pequenez, mas parece-me bastante triste a vaidade, a presunção, o orgulho, tudo isso com que pretendemos ou queremos mostrar que somos mais do que efectivamente somos. Não será caricato ou ridículo, mas bastante triste.
uma contradição nada incomum
uma:
“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”
e outra:
“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”
Daqui
“Não faz sentido nenhum [dizer que censurei o Saramago]”, afirma. “O homem ficou rico à minha custa. E ganhou o prémio Nobel à minha custa. Eu sou acusado é de ter promovido o senhor Saramago a prémio Nobel. Tenho qualquer quota-parte nessa causa.”
e outra:
“Disseram-me: ‘És muito miúdo. Não sabes que há verdades que não se podem dizer?’ Fez-se clique. Olhei para o gajo e disse assim: ‘Mas comigo é que não’.”
Daqui
2017-04-24
NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
para o Vítor
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral, in Morada, ed. Assírio & Alvim
2017-04-22
2017-04-21
2017-04-20
2017-04-18
2017-04-14
2017-04-13
2017-04-12
2017-04-09
nem o Eça ousaria tanto
É que habitualmente fala-se dos três pastorinhos, mas na verdade há dois processos a decorrer em fases muito distintas. Quando as pessoas rezam e relatam esses presumíveis milagres, referem-se aos três pastorinhos, ou só ao Francisco e à Jacinta, ou só à Lúcia?
Essa pergunta é interessantíssima, e se tiver a resposta agradeço-lhe imenso (risos)! Esta é a minha dificuldade agora, porque no nosso imaginário são os três pastorinhos, é muito difícil distinguir. Só ao Francisco ou só à Jacinta já há pouca gente a fazê-lo, até porque o meu papel é mesmo este, é difundir a santidade e dizer que eles estão juntos, e de facto as pessoas já os veem como os dois pastorinhos. O problema é que também incluem a Lúcia. Então, o meu papel é fazer perceber às pessoas que a Lúcia não é pastorinha, a Lúcia é Irmã Lúcia. É difícil, mas esta é a minha missão enquanto postuladora das duas causas. É mesmo dizer que se pedem aos três, em termos processuais, fico sem saber o que fazer. Não posso introduzir o caso.
2017-04-08
porque hoje é sábado
Henri Cartier-Bresson
“Chez Gégène”, Joinville-le-Pont, France, 1938
From Images à la Sauvette (Verve, 1952), p. 16
© Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos
2017-04-06
mulheres de Abril
A liberdade que nunca se imaginara poder ser tão grande, as esperanças quase sem limites dos tempos que se seguiram. Sim, tudo isso, mas foi longo o caminho de muitos para lá chegarem – e o meu também foi.
[Joana Lopes, aqui]
2017-04-05
"o fruto permitido"
a ler os outros:
Em suma, perdemos a liberdade, a espontaneidade, a irresponsabilidade do
animal. O fruto existe e por isso sabemos que não podemos arriscar
tudo, comendo o que quisermos e a quantidade que quisermos. Há, pois,
limites e precauções a tomar. Mas também sabemos que, não sendo clara a
indicação do fruto, nada nos obriga a prescindir de qualquer um deles,
sem termos de ficar presos à camisa de forças da culpa. Somos e não
somos livres, somos e não somos racionais, somos e não somos totalmente
conscientes do que fazemos, em simultâneo. Ser humano sempre foi assim e
é assim que irá continuar a ser. Bom proveito.
2017-04-04
FÁTIMA
Estive na festa de Fátima. Vendo como se empurravam nas bermas
cães, burros, jornalistas, embaixadores, turistas,
e ao longo das estradas, de joelhos ligados,
em todo o asfalto, de cabeça perdida o povo se arrastava.
Com imprecações, gritos, lágrimas, gemidos,
por poças, montes de esterco, cacos de vidro,
arrastava-se para que a bênção de Fátima
viesse ao povo e o pudesse ajudar.
Arrastam-se camponeses, amargura no rosto enrugado
como haveria na mãe de Jesus Cristo
quando lhe devolveram, por fim, o filho crucificado,
tocando-lhe ao descer o seu corpo branco da cruz.
Arrastavam-se Madalenas, torciam-se, gemiam, ofegavam,
e semeavam lágrimas, confiando nessa sementeira,
mas só sorriam anjos rubros e impertinentes
arrastando a sementeira às costas, como rapazes traquinas.
E nos automóveis pretos, louvados os Apóstolos,
com buzinas que passavam pelos saloios arrastando-se na poeira,
corriam, como para o futebol, os ideólogos do andar de rastos,
os polícias de casse-tête sendo super-indulgentes.
E no estádio, com a voz forte da Phillips,
o comércio da fé deixava cair a sua palavra quente
sobre o mar de cabeças confusas e chapéus de jornal,
oscilando trémulas como um prato de pudim.
Apelava o comércio, estendendo as mãos bem cuidadas,
na altura em que nas estradas de Deus pejadas,
que se arrastavam ao longe sobre joelhos invisíveis,
o poente se mostrava através duma neblina como sangue através de ligaduras.
E o povo arrastava-se. E os tristes camponeses não sabiam
que os pastores de rebanho, de submissa e simples fé,
não só não podem — tudo podem os grandes no mundo! —
como não pensam tirar os seus filhos da cruz...
Yevgeny Yevtushenko, traduzido por Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Soviética, Editorial Futura, pp. 166-167, 1973.
obrigada, Henrique
2017-04-03
A mulher inclina-se na raiz da praia,
rente à espuma. Espera que a água lhe
suba pelos pés, atingindo a ponta das
saias. O seu corpo é surpreendido pelo
vento. O sol cresta-lhe as mãos molhadas
desde a manhã. O cão aguarda ______
protege-a da maré viva que se aproxima,
olha à sua volta e roda, afugentando as
gaivotas. Da colina que se encolhe para
dentro do mar, uma força estranha
vem cobrir a mulher de claridade e só
depois a envolve com um véu, fazendo-a
relembrar um naufrágio.
Jaime Rocha
"mulher inclinada com cântaro"
Ed. volta d'mar
2017-04-02
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