2017-12-10
2017-12-06
Assisti ontem a esta conversa sobre as raízes judaico-cristãs. Soube-me a pouco, sobretudo pela narrativa do frei Fernando Ventura, para quem a dúvida se resume a uma dimensão transitória de regresso à fé.
janela indiscreta
As "novas" tecnologias fornecem os meios para que sejamos uma súcia de mirones maledicentes. Alegremente vivemos nisto.
2017-12-05
2017-12-04
vale a pena ler
O corpo da mulher “provoca a incontrolabilidade masculina”, ou seja, “é
desculpável que os homens se descontrolem perante a rejeição de uma
mulher ou a possibilidade da perda do acesso à mulher”, explica a
socióloga. “Isto é visível em muitas das nossas decisões judiciais.
Lembro-me de um acórdão muito recente de um incendiário que teve uma
pena suspensa e uma das argumentações era que ele estava bastante
perturbado porque a mulher se tinha divorciado dele.” Este desconforto,
frustração e potencial comportamento agressivo de alguns homens perante
um não da mulher remetem-nos para as questões interrelacionadas do
consentimento e da masculinidade hegemónica, que são centrais para
descodificar as raízes do assédio e da violência de género no geral.
“Uma das componentes da masculinidade hegemónica é a não-aceitação do
não”, aliada “à crença de que assediar é um elogio”, nota Conceição
Nogueira. Forçar a intimidade não é sedução nem flirt; é
assédio. “A pessoa diz que não, mas é para se fazer de difícil, portanto
deixa tentar mais duas ou três vezes, mais quatro ou cinco”,
exemplifica Conceição.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
2017-12-01
2017-11-30
Não consigo imaginar estas mulheres como geradoras de ambiguidades. A interlocutora, que está de costas, conheci-a como uma grande mulher, no tamanho e na força interior.
2017-11-28
2017-11-26
2017-11-25
Nem mais um minuto de silêncio
Nem nos piores pesadelos, algum dia, imaginei que no Séc. XXI sentiria a urgência de dar voz a esta causa.
2017-11-24
«Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.»
Bem mais do que o(s) Papa(s)e/ou as pessoas da comunidade mais restrita, foi este discurso que me arredou da Igreja. Este modo simplista, lírico, desumano de olhar cada um para si próprio e para os outros.
Não posso dizer que tenho pena, pelo contrário, vou seguindo mais livre, que é o caminho que me convém. Livre na errância.
2017-11-23
Daqui
Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.
Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.
2017-11-22
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar
TERRA NAVEGÁVEL
Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.
Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.
Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.
Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.
A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.
Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim
Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.
Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.
Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.
Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.
A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.
Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim
2017-11-21
2017-11-20
até quando?
No país dos brandos costumes, mais uma jovem mulher é morta pelo companheiro, na presença dos três filhos.
2017-11-19
2017-11-18
2017-11-17
2017-11-16
Dies Irae
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
2017-11-15
2017-11-13
2017-11-11
2017-11-10
2017-11-08
o que me parece ser uma confissão honesta
"Não sou um católico. Se calhar a melhor definição para a situação em que me encontro é a de errante."
Paulo Teixeira Pinto, aqui
2017-11-07
2017-11-06
2017-11-05
ALGUMA ETERNIDADE
Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.
Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.
Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.
Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.
Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.
Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.
Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
2017-11-04
2017-11-03
ademais
Os homens, reconhecendo a inconveniência de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta, deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe máscara.
Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"
Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"
abrir os olhos é preciso
Temo, temo seriamente, que tanta indignação com os casos mais mediáticos de violência doméstica e de assédio, sirvam apenas para aliviar algumas consciências. E todas as mulheres e crianças, que não têm nome para aparecer nos jornais ou redes sociais, continuem no anonimato a ser tão vítimas quanto o foram antes.
2017-11-01
2017-10-31
2017-10-28
2017-10-27
2017-10-26
2017-10-25
2017-10-24
"Se os teus olhos fossem um poço e eu lá deixasse cair uma pedra, a pedra nunca acabava de cair"
Teatro da Rainha
2017-10-23
Li há pouco: "um católico tem fé e a fé não desespera." E embrenho-me em cogitações e interrogações: um vaso é aquilo que contém? católico uma vez católico para sempre (mesmo que não esteja de acordo quanto a princípios nem comungue da vida da Igreja)? É possível possuir uma fé que seja mais que interrogação e espera?
CHUVA DOMÉSTICA
Concede o teu perdão àquele que foste ontem
e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.
As casas não sabem nada de nós próprios
e são paredes de hábitos,
casulos seculares.
Há vinte anos tu eras diferente, as casas não sabem nada,
dizia o outro e bem,
muito menos o que tu foste ontem sobre o que tu és hoje
debaixo do chuveiro.
O que tu foste ontem não tem nada a ver com essa barba grossa,
com essa dor no dedo grande do pé
e que te dizem ser gota, e essa excitação precoce
que te vem da memória
e começou agora extemporânea e ridícula, quando o dedo te dói
e o tempo, como se fosse um século, tem um dia de vida,
uma noite, e falavam do ébola a invadir a europa.
Toda esta chuva minúscula que te cai da boca,
todo este desabar de água controlada e tépida te leva a esquecer
o que é uma epidemia, foi ontem?
Que estranhas criaturas, hiper-protegidas,
desfilaram ontem como um sonho e hoje de manhã
são como um pesadelo?
A verdade é só uma, o que tu foste ontem
já não te conhece.
Não consintas que deus te sobreponha os dias
aos mistérios do tempo.
Exige a cada minuto o seu próprio prazer e desilusão.
Por alma dos que lá tens coça o dedo grande do pé
e fecha-me essa torneira. Tu ainda não reparaste,
mas a casa de banho é agora um lago.
Armando Silva Carvalho in A Sombra do Mar
Assírio & Alvim
Concede o teu perdão àquele que foste ontem
e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.
As casas não sabem nada de nós próprios
e são paredes de hábitos,
casulos seculares.
Há vinte anos tu eras diferente, as casas não sabem nada,
dizia o outro e bem,
muito menos o que tu foste ontem sobre o que tu és hoje
debaixo do chuveiro.
O que tu foste ontem não tem nada a ver com essa barba grossa,
com essa dor no dedo grande do pé
e que te dizem ser gota, e essa excitação precoce
que te vem da memória
e começou agora extemporânea e ridícula, quando o dedo te dói
e o tempo, como se fosse um século, tem um dia de vida,
uma noite, e falavam do ébola a invadir a europa.
Toda esta chuva minúscula que te cai da boca,
todo este desabar de água controlada e tépida te leva a esquecer
o que é uma epidemia, foi ontem?
Que estranhas criaturas, hiper-protegidas,
desfilaram ontem como um sonho e hoje de manhã
são como um pesadelo?
A verdade é só uma, o que tu foste ontem
já não te conhece.
Não consintas que deus te sobreponha os dias
aos mistérios do tempo.
Exige a cada minuto o seu próprio prazer e desilusão.
Por alma dos que lá tens coça o dedo grande do pé
e fecha-me essa torneira. Tu ainda não reparaste,
mas a casa de banho é agora um lago.
Armando Silva Carvalho in A Sombra do Mar
Assírio & Alvim
2017-10-22
Tenho dias em que a vida entra por mim devagarinho, quase sem eu dar por isso. Dias em que até a santidade me parece acessível, como colher um bom fruto, de tal modo acessível ao alcance da mão que me basta um pequeno salto que eu saltarei quando quiser. Dias em que todos me parecem bons e em que quase me convenço de que os homens se amam de facto uns aos outros. Mas passa uma noite e acorda-se já num outro mundo. Mundo de lassidão e de peso. Mundo que sinto nos ombros e me esmaga.
António Alçada Baptista - Peregrinação Interior
#imagem - Rufino Tamayo, 1977
2017-10-21
2017-10-20
exatamente
Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo.
António Guerreiro no Público
2017-10-19
A um Homem do Passado
Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?
Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.
Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.
Manuel António Pina
#imagem. Mimmo Jodice, Nápoles, 1980
tirem-me deste filme
Há homens grandes que se equipam a preceito, às quintas e domingos saem para os campos, e publicitam impantes as presas que andaram a criar em cativeiro, e dias antes soltaram para poder matar.
2017-10-15
Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.
Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água
2017-10-14
o dia seguinte
No dia de ontem, obriguei-me a ver "a entrevista" (a esperança é a última a morrer), mas serviu apenas para reforçar um estado de náusea. Nunca é agradável percepcionar a manipulação. Reconhecer que alguém se serviu de um cargo público para alimentar a ânsia desmedida de posse, é desolador. Sim, por duas vezes contribui com o meu voto para que José Sócrates fosse eleito para chefiar um governo, que eu acreditava ser o melhor para o país.
Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.
Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.
2017-10-12
2017-10-10
2017-10-08
oitavo dia
Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro
Sophia de Mello Breyner Andresen, 1977
2017-10-07
2017-10-06
2017-10-05
2017-10-02
no ano da graça de 2017, século XXI, portanto,
Isaltino de Morais é eleito presidente de Câmara de Oeiras. Hoje reparo que os suportes de papel higiénico, nas casas de banho do centro comercial da cidade, estão trancados a cadeado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























