2018-01-20
2018-01-19
Por razões várias e diferentes ocupações, a única forma de tomar conhecimento de algumas notícias, foi através do rádio, enquanto conduzia. Sempre em curtos trajectos (sim, sou uma privilegiada, trabalho muito perto de casa). Assim, andei a semana a ouvir pequenos extratos noticiosos que me puseram ao corrente do seguinte: uma operária têxtil ia oferecer um presente/surpresa ao ministro (afinal era um cinto de ligas vermelho e o ministro era o da Economia). O BE está escamado com a Gestão dos CTT (eu também) e vai mandando recados ao Governo para acabar com o regabofe. O LNEC afinal atestou que uma qualquer bancada estava firme e não oferecia perigo. E, pasme-se, a igreja de Braga, pela voz do bispo, anuncia ao mundo que tem uma equipa especializada, para acompanhar casais recasados que queiram integrar-se na igreja. Mas, deixou o aviso, é um percurso longo de discernimento. Voltando ao cinto de ligas vermelho...
Oficina espiritual
Após alguns exercícios de hiper- oxigenação
para respirarmos todos em uníssono,
a mestra pediu que cada qual se apresentasse ao grupo
dizendo acerca de si mesmo alguma qualidade,
"o que quiserem, uma coisa positiva".
Quase toda a gente fluiu airosamente com:
"eu acho-me bonita" ou "gosto de ajudar os outros"
"eu sou um bom amigo" e por aí fora.
Eu disse que fazia muitas asneiras, mas
tinha facilidade em reconhecer os meus erros
e que esta era a única qualidade que possuía
sobre a qual não tinha dúvidas ser algo positivo.
A mestra não gostou.
"Tens orgulho nos teus erros!"
Não sei, é possível, mas duvido que o orgulho
seja, ele mesmo, a qualidade positiva.
Positivo acho que é só reconhecer os erros;
chego a imaginar que se trata da própria ideia de bom de bem.
A mestra arregalou muito os olhos, sem falar.
Aliás, é o que leio na bíblia, no génesis,
quando o criador vai dizendo "que bom"
a cada coisa que cria, vai como que admitindo o erro.
A mestra serrou os dentes:
"O erro não é uma coisa positiva.
Não disseste absolutamente nada de positivo".
João Paulo Esteves da Silva in Tâmaras
edição, douda correria, 2016
Após alguns exercícios de hiper- oxigenação
para respirarmos todos em uníssono,
a mestra pediu que cada qual se apresentasse ao grupo
dizendo acerca de si mesmo alguma qualidade,
"o que quiserem, uma coisa positiva".
Quase toda a gente fluiu airosamente com:
"eu acho-me bonita" ou "gosto de ajudar os outros"
"eu sou um bom amigo" e por aí fora.
Eu disse que fazia muitas asneiras, mas
tinha facilidade em reconhecer os meus erros
e que esta era a única qualidade que possuía
sobre a qual não tinha dúvidas ser algo positivo.
A mestra não gostou.
"Tens orgulho nos teus erros!"
Não sei, é possível, mas duvido que o orgulho
seja, ele mesmo, a qualidade positiva.
Positivo acho que é só reconhecer os erros;
chego a imaginar que se trata da própria ideia de bom de bem.
A mestra arregalou muito os olhos, sem falar.
Aliás, é o que leio na bíblia, no génesis,
quando o criador vai dizendo "que bom"
a cada coisa que cria, vai como que admitindo o erro.
A mestra serrou os dentes:
"O erro não é uma coisa positiva.
Não disseste absolutamente nada de positivo".
João Paulo Esteves da Silva in Tâmaras
edição, douda correria, 2016
2018-01-17
2018-01-15
creio nisto
Qual a diferença entre um homem e uma mulher que acasalam, esta engravida e deixa descendência, e duas aves, dois peixes, dois insectos ou dois mamíferos que acasalam, a fêmea engravida e deixa descendência? Nenhuma. Claro que o processo é diferente mas a essência é a mesma: somos indivíduos, desejamos e agimos em nome individual mas estamos apenas a servir a nossa espécie. Apaixonamo-nos, acreditando ser em vista da nossa felicidade individual mas isso não passa de uma armadilha para fazer com que a espécie sobreviva, tal como acontece com qualquer outra.
2018-01-13
[...] à laia de manifesto alternativo ao das 100: queridos homens, nós, feministas, que não vos odiamos, que gostamos de sexo, estamos com a liberdade e queremos estar convosco. Resta saber onde vocês estão.
Aqui está um repto que eu assino por baixo, embora ressalve o seguinte: Isto não é uma questão de feminismo ou feminismos - porque há vários - e muito menos de vitimização. Até porque ela está presente, de modos diferentes, é certo, em elementos de ambos os sexos.
Há uma nova consciência social de que uma mulher não pode estar sujeita a tudo e vivê-lo em silêncio. Isso não é confundir assédio com sedução. Não vale a pena querer nivelar tudo.
Há uma nova consciência social de que uma mulher não pode estar sujeita a tudo e vivê-lo em silêncio. Isso não é confundir assédio com sedução. Não vale a pena querer nivelar tudo.
2018-01-12
Há qualquer coisa de profundamente doentio, mesmo perverso, em caluniar, num lamento que se julga a si próprio elevado, a linguagem como incapaz de ser o que é, linguagem. Mas, em rigor, o lamento tem origem numa pretensão que lança um voto sobre a linguagem incapaz de reconhecer e de experimentar o que ela é, não uma coisa, não uma pedra nem árvore nem estrela nem homem nem mulher, mas desejo de dizer.
Por isso, mistério é que haja o dizer, não o indizível. O indizível aponta para uma tensão que o dizível transporta, não é um estranho à palavra, pelo contrário, a palavra concentra e guarda, às vezes petrifica de tão glorificado, um movimento, uma promessa, uma inquietação, inerentes a ela mesma e a que só ela pode acudir, que só ela pode engendrar.
Maria Filomena Molder,
Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais
Relógio D'Água
2018-01-11
calma, eu sei que isto não é a descoberta da pólvora, mas anote-se
Querer percepcionar o mundo através das Tvs, jornais, redes sociais etc., é como experimentar contemplar o mar olhando para um aquário.
2018-01-10
Elas quiseram mesmo dizer, importunar?
Que as mulheres têm de ser mais autónomas, completamente de acordo, mas importunadas e coagidas, tenham lá juizinho!
Adenda:
Leiam, por favor, este post no Ouriquense.
Adenda 2:
Mais um texto de opinião clarificador. E não, condenar o assédio não é nenhuma campanha contra os homens. Nem põe todas as mulheres em qualquer peanha. Não vele a pena mistificar para não dialogar e mudar comportamentos.
Que as mulheres têm de ser mais autónomas, completamente de acordo, mas importunadas e coagidas, tenham lá juizinho!
Adenda:
Leiam, por favor, este post no Ouriquense.
Adenda 2:
Mais um texto de opinião clarificador. E não, condenar o assédio não é nenhuma campanha contra os homens. Nem põe todas as mulheres em qualquer peanha. Não vele a pena mistificar para não dialogar e mudar comportamentos.
im·por·tu·nar
-
Conjugar
"importunar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/importunar [consultado em 10-01-2018].
verbo transitivo
1.
Incomodar, enfadar, ser molesto a.
2.
Causar transtorno a.
3.
Perseguir insistentemente ou com obsessão.
=
MOLESTAR
"importunar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/importunar [consultado em 10-01-2018].
2018-01-09
2018-01-08
2018-01-07
Quem passa por este blogue, quase de certeza segue o do Henrique, mas por mil e uma razões, quero destacar o seguinte:
Eis um balanço que está por fazer, o das mulheres que foram assassinadas em 2017 por seus maridos ou namorados, vítimas de um amor sem fundamento, algumas reiteradamente agredidas ao longo dos anos, executadas das mais diversas e cruéis formas depois de tortura prolongada. Foram mártires de uma causa que o Deus das igrejas não reconhece, tão ágil que sempre foi a relegar a mulher para o plano da subjugação. Presas ao matrimónio, escravas do prazer masculino, condenadas à castidade, as mulheres que nascem servas e servas têm de morrer. Que crimes terão cometido? De que males padecerão para que se justifiquem acórdãos de juízes a desculpabilizar os agressores? Mártires de uma praga cultural, civilizacional, essas mulheres que ousaram ser humanas morreram não para que as esqueçamos, mas para que nos lembremos diariamente da maldição há muito sobre nós lançada. Não poderão morrer mudas, para sempre silenciadas, como se tivesse sido por nada o que sofreram.
2018-01-06
da calma e do silêncio
Quando eu morder a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano,
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Conceição Evaristo
(ler mais aqui)
Quando eu morder a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano,
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Conceição Evaristo
(ler mais aqui)
2018-01-05
2018-01-02
2018-01-01
2017-12-30
elegia
já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
2017-12-29
são palas, senhor
Taxar as actividades dos partidos implicaria taxar pessoas. Os partidos não são um ente, como a Igreja, por exemplo, são pessoas, grupos de pessoas.
lido aqui
2017-12-28
2017-12-21
2017-12-20
oh, suprema ironia
Confrontada, numa reunião de trabalho, com a exposição de alguém que me pedia ajuda para concretizar o sonho de uma vida, apontei-lhe o caminho da burocracia. Com a suavidade possível e com clareza, fui-lhe enumerando os procedimentos e as diferentes entidades que teriam de se pronunciar sobre a viabilidade do que pretendia realizar. Senti-me uma idiota. Realista, mas idiota.
2017-12-19
que o absurdo, mesmo em pequenas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia-a-dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia-a-dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.
Alexandre O'Neill
n.19/12/1924-m.21/08/1986
2017-12-17
2017-12-16
que falta de discernimento
Não comento o caso concreto, (por total desconhecimento), nem a validade do juízo (pela mesma razão), mas a redutora observação de que "uma mulher auto-suficiente e determinada se protegeria a si e aos filhos".
Esta observação, só me leva a pensar, que quem a profere pode ser alguém muito inteligente, mas não sabe nadinha da vida e muito menos das dinâmicas da violência doméstica e das suas vítimas.
2017-12-14
OS ANOS SÃO SEMPRE OS RESPONSÁVEIS
Os anos deviam convocar a esta mesa
defraudada pela técnica
uma lição das coisas que fosse mais amável.
Com alguma beleza nos desastres
do tempo
e daquilo que hoje por pobreza de espírito
chamamos o destino.
Com toda a mecânica fantasmática da memória.
Com as imagens singulares nas retinas
de outrora,
esses cavalos soberbos, erguidos contra os anos
e a relinchar as suas músicas
antes do abate.
Mas eu revejo o álbum dos anos e tudo são figuras
de folclore,
já não sinto vergonha em dizê-lo,
como escreveu o Drummond, minha matéria
é o nada.
Pior que isso, foi o nada.
Eu e as lentes. Pensei que elas fossem os olhos
da ciência de ver, frias, mas que soubessem medir
a distância entre o prazer e os simples
acidentes do sexo.
Agora que uma névoa se espraia panorâmica
e muda à minha volta
e tudo me obriga a consultar
o facultativo.
Sempre me deixei levar pela cabeça
nas águas mais impróprias em que braços e pernas
me arrastavam junto ao que eu chamaria amor
e seria só sangue em desequilíbrio.
Eu soprava forte nessa arte pneumática
criada pelo desejo
e o ar, menos que o ar, levava tudo.
Repito: hoje o que procuro é a síntese do nada.
E alguma palavra antiga, escura
e melancólica,
que me traga, oculta, certos soluços de alma.
Já desisti dos teóricos, além de chatos
são duma vaidade insuportável.
Prefiro o ingénuo.
E neste Natal ainda sou capaz de ir beijar, disfarçadamente,
o pé ao Menino.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Assírio & Alvim
#imagem - Isabela Ginanneschi
2017-12-13
estamos irreconhecíveis
(imagem-Enzo Sellerio)
Escreve Miguel Real, na "Nova Teoria do Pecado" - Ed. D. Quixote:"Como é possível fundar uma civilização sobre uma categoria negativa como o pecado? Entre as várias respostas possíveis, uma recebe o acordo deste ensaio: porque existe antropologicamente no homem um sentimento de culpa, difuso e inconsciente, originado pela incapacidade de vencer definitivamente o mal e o medo por este criado: as quatro fontes do mal (carência, sofrimento psíquico, dor física e morte) e o medo como a mais sólida das emoções primárias."
Presentemente, e perante as mais diversas suspeitas e até acusações, o que mais se proclama é uma consciência limpa e tranquila. Será esta a característica base dos "nórdicos do séc. XXI"?
2017-12-10
E danço um tango com você
eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.
eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.
tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.
toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.
penso nas normalidades desses senhores
ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada
uma maria como todas as outras, pronta pra violação.
maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas
eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.
Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.
toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.
penso nas normalidades desses senhores
ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada
uma maria como todas as outras, pronta pra violação.
maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas
eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.
Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)
O assédio e a violência doméstica têm progredido sob o manto do silêncio. O silêncio envergonhado e o silêncio cúmplice.
Romper esse manto nebuloso, indignar-se e manifestar-se contra preconceitos ignorantes que atravessam todo o tecido social, e se manifestam até em instituições que deveriam ser exemplares.
2017-12-06
Assisti ontem a esta conversa sobre as raízes judaico-cristãs. Soube-me a pouco, sobretudo pela narrativa do frei Fernando Ventura, para quem a dúvida se resume a uma dimensão transitória de regresso à fé.
janela indiscreta
As "novas" tecnologias fornecem os meios para que sejamos uma súcia de mirones maledicentes. Alegremente vivemos nisto.
2017-12-05
2017-12-04
vale a pena ler
O corpo da mulher “provoca a incontrolabilidade masculina”, ou seja, “é
desculpável que os homens se descontrolem perante a rejeição de uma
mulher ou a possibilidade da perda do acesso à mulher”, explica a
socióloga. “Isto é visível em muitas das nossas decisões judiciais.
Lembro-me de um acórdão muito recente de um incendiário que teve uma
pena suspensa e uma das argumentações era que ele estava bastante
perturbado porque a mulher se tinha divorciado dele.” Este desconforto,
frustração e potencial comportamento agressivo de alguns homens perante
um não da mulher remetem-nos para as questões interrelacionadas do
consentimento e da masculinidade hegemónica, que são centrais para
descodificar as raízes do assédio e da violência de género no geral.
“Uma das componentes da masculinidade hegemónica é a não-aceitação do
não”, aliada “à crença de que assediar é um elogio”, nota Conceição
Nogueira. Forçar a intimidade não é sedução nem flirt; é
assédio. “A pessoa diz que não, mas é para se fazer de difícil, portanto
deixa tentar mais duas ou três vezes, mais quatro ou cinco”,
exemplifica Conceição.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
2017-12-01
2017-11-30
Não consigo imaginar estas mulheres como geradoras de ambiguidades. A interlocutora, que está de costas, conheci-a como uma grande mulher, no tamanho e na força interior.
2017-11-28
2017-11-26
2017-11-25
Nem mais um minuto de silêncio
Nem nos piores pesadelos, algum dia, imaginei que no Séc. XXI sentiria a urgência de dar voz a esta causa.
2017-11-24
«Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.»
Bem mais do que o(s) Papa(s)e/ou as pessoas da comunidade mais restrita, foi este discurso que me arredou da Igreja. Este modo simplista, lírico, desumano de olhar cada um para si próprio e para os outros.
Não posso dizer que tenho pena, pelo contrário, vou seguindo mais livre, que é o caminho que me convém. Livre na errância.
2017-11-23
Daqui
Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.
Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.
2017-11-22
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar
TERRA NAVEGÁVEL
Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.
Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.
Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.
Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.
A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.
Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim
Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.
Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.
Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.
Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.
A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.
Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim
2017-11-21
2017-11-20
até quando?
No país dos brandos costumes, mais uma jovem mulher é morta pelo companheiro, na presença dos três filhos.
2017-11-19
2017-11-18
2017-11-17
2017-11-16
Dies Irae
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
2017-11-15
2017-11-13
2017-11-11
2017-11-10
2017-11-08
o que me parece ser uma confissão honesta
"Não sou um católico. Se calhar a melhor definição para a situação em que me encontro é a de errante."
Paulo Teixeira Pinto, aqui
2017-11-07
2017-11-06
2017-11-05
ALGUMA ETERNIDADE
Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.
Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.
Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.
Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.
Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.
Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.
Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
2017-11-04
2017-11-03
ademais
Os homens, reconhecendo a inconveniência de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta, deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe máscara.
Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"
Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"
abrir os olhos é preciso
Temo, temo seriamente, que tanta indignação com os casos mais mediáticos de violência doméstica e de assédio, sirvam apenas para aliviar algumas consciências. E todas as mulheres e crianças, que não têm nome para aparecer nos jornais ou redes sociais, continuem no anonimato a ser tão vítimas quanto o foram antes.
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