Praticamos alguns gestos generosos porque queremos o bem daqueles a quem se destinam, ou para sermos admirados e aceites?
2018-03-04
2018-03-03
2018-03-02
O
enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais
desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. O
ser humano tem uma raiz por sua participação real, activa e natural
na existência de uma colectividade que conserva vivos certos
tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.
Seria vão
voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma
ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição
entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada,
não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo,
dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não
temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do
passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as
necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.
Simone Weil, O Enraizamento
2018-02-27
O meu pai deixou em poemas, palavras sobre o amor, sobre o tempo, sobre a morte, sobre tantas coisas, sobre o cosmos presente num quotidiano errático. Minha mãe desenhou caminhos para a liberdade, mostrou-nos, aos quatro, a força e a determinação da alegria, da vontade, da coragem. Transmitia-nos uma energia enigmática, funda, irrecusável. Era esta uma das suas faces. Era uma generosidade que não queria retorno. Silêncio. Ensinou-nos o que não se explica, o intraduzível em palavras, talvez em coisa nenhuma, uma condição de humanidade em aberto, onde o futuro é vislumbrado pela curiosidade e pela criatividade. Mostrou-nos a arte da vida, mesmo nos momentos mais duros e difíceis. Deixou-nos a dignidade maior.
Duarte Belo, aqui
2018-02-26
2018-02-23
2018-02-22
Por defeito ou feitio nunca valorizei os sinais religiosos exteriores, quer para expressar a minha religiosidade ou a de outrem. Nos dias que correm muito menos. Mas esta notícia inquieta-me. Se fosse alguém a pretender impor os crucifixos a minha perplexidade seria idêntica.
Manifestação de interesses, considero o Ricardo Alves uma pessoa inteligente, por quem tenho simpatia (que restou do tempo em que trocávamos galhardias ateus/crentes, quando a bloga fervilhava de discussão e emoção a rodos).
acontece
Ouço
os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a
igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou
para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas,
explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos,
obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu
discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.
2018-02-20
2018-02-18
morreu Maria Teresa, a mulher que o poeta amou
[...]
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém [...]
do poema "Elogio de Maria Teresa", Ruy Belo
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém [...]
do poema "Elogio de Maria Teresa", Ruy Belo
2018-02-17
2018-02-16
2018-02-14
Frei Bento Domingues, a demonstrar que há vozes "desalinhadas" na Igreja, mesmo dentro da hierarquia.
A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?
É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!
daqui
A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?
É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!
daqui
2018-02-13
2018-02-12
Há encantamentos que não se explicam. Trago o Nuno Bragança no coração, sem nunca o ter conhecido ou sequer visto, apenas pela leitura do que dele foi publicado e pelas memórias da Joana Lopes. No blogue hoje está a partilha de mais uma memória e o link para este documentário.
precisamente
Solidão
Que venham todos os pobres da Terraos ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!
Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!...
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
2018-02-10
2018-02-09
2018-02-08
Como dizia o outro "o amor é fodido" e ser bispo católico também o é. Alertada pelas notas dos jornais fui à fonte para compreender o contexto. Nada de novo. O divórcio, entre a ortodoxia e o corpo, o sexo, as alegrias e dores dos homens e mulheres contemporâneos, mantém-se. Para mim, é semelhante a um ruído que ouço muito ao longe, mas não causa qualquer perturbação. Fiquem na deles e sejam felizes.
2018-02-07
A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa,
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa,
mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
que ontem significavam alguma coisa.
Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
Judith Herzberg
#imagem - Helena Almeida
2018-02-05
voltemos à vaca fria
Um artigo bastante equilibrado da Fernanda Câncio:
Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com
subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de
fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer
num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro
cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte -
não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o
caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é
um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar,
meus senhores? [artigo completo]
2018-02-04
Dia de Descanso
Hoje reservo o dia inteiro para chorar
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário
E choro choro porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado
Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!
Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser
E choro de coragem isto é
as lágrimas hão-de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio
Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo
Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um
Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam
e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico
Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro
Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo
Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar
E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco
Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente
Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos
Fernando Lemos in "Teclado Universal"
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário
E choro choro porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado
Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!
Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser
E choro de coragem isto é
as lágrimas hão-de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio
Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo
Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um
Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam
e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico
Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro
Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo
Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar
E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco
Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente
Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos
Fernando Lemos in "Teclado Universal"
2018-02-03
2018-02-01
Desterro
Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta,
bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as coisas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais do trem…
João Guimarães Rosa, do livro “Magma”.
Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta,
bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as coisas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais do trem…
João Guimarães Rosa, do livro “Magma”.
2018-01-31
2018-01-29
2018-01-28
2018-01-26
sendo eu "uma pessoa simples que vive longe da civilização" tenho algumas dificuldades em entender este raciocínio:
Há uma responsabilidade do assediador. Mas também há uma responsabilidade do assediado. É tão criminoso tentar corromper como deixar-se corromper. Cada pessoa tem a hipótese de dizer ‘não’, a menos que seja ameaçada com uma pistola.
E já agora, para mim, "pessoa simples etc. etc.", nunca esteve presente confundir assédio com sedução. Nem para a Deneuve e restantes subscritoras...mas elas são ícones da beleza etc.
2018-01-25
2018-01-24
2018-01-23
2018-01-22
eu que o diga
O sexo é um problema de resolução difícil deixado pela Biologia. Mas o
sexo regulamentado pela religião é um problema muito maior.
ide ler o texto completo ao Ouriquense
ide ler o texto completo ao Ouriquense
2018-01-21
2018-01-20
2018-01-19
Por razões várias e diferentes ocupações, a única forma de tomar conhecimento de algumas notícias, foi através do rádio, enquanto conduzia. Sempre em curtos trajectos (sim, sou uma privilegiada, trabalho muito perto de casa). Assim, andei a semana a ouvir pequenos extratos noticiosos que me puseram ao corrente do seguinte: uma operária têxtil ia oferecer um presente/surpresa ao ministro (afinal era um cinto de ligas vermelho e o ministro era o da Economia). O BE está escamado com a Gestão dos CTT (eu também) e vai mandando recados ao Governo para acabar com o regabofe. O LNEC afinal atestou que uma qualquer bancada estava firme e não oferecia perigo. E, pasme-se, a igreja de Braga, pela voz do bispo, anuncia ao mundo que tem uma equipa especializada, para acompanhar casais recasados que queiram integrar-se na igreja. Mas, deixou o aviso, é um percurso longo de discernimento. Voltando ao cinto de ligas vermelho...
Oficina espiritual
Após alguns exercícios de hiper- oxigenação
para respirarmos todos em uníssono,
a mestra pediu que cada qual se apresentasse ao grupo
dizendo acerca de si mesmo alguma qualidade,
"o que quiserem, uma coisa positiva".
Quase toda a gente fluiu airosamente com:
"eu acho-me bonita" ou "gosto de ajudar os outros"
"eu sou um bom amigo" e por aí fora.
Eu disse que fazia muitas asneiras, mas
tinha facilidade em reconhecer os meus erros
e que esta era a única qualidade que possuía
sobre a qual não tinha dúvidas ser algo positivo.
A mestra não gostou.
"Tens orgulho nos teus erros!"
Não sei, é possível, mas duvido que o orgulho
seja, ele mesmo, a qualidade positiva.
Positivo acho que é só reconhecer os erros;
chego a imaginar que se trata da própria ideia de bom de bem.
A mestra arregalou muito os olhos, sem falar.
Aliás, é o que leio na bíblia, no génesis,
quando o criador vai dizendo "que bom"
a cada coisa que cria, vai como que admitindo o erro.
A mestra serrou os dentes:
"O erro não é uma coisa positiva.
Não disseste absolutamente nada de positivo".
João Paulo Esteves da Silva in Tâmaras
edição, douda correria, 2016
Após alguns exercícios de hiper- oxigenação
para respirarmos todos em uníssono,
a mestra pediu que cada qual se apresentasse ao grupo
dizendo acerca de si mesmo alguma qualidade,
"o que quiserem, uma coisa positiva".
Quase toda a gente fluiu airosamente com:
"eu acho-me bonita" ou "gosto de ajudar os outros"
"eu sou um bom amigo" e por aí fora.
Eu disse que fazia muitas asneiras, mas
tinha facilidade em reconhecer os meus erros
e que esta era a única qualidade que possuía
sobre a qual não tinha dúvidas ser algo positivo.
A mestra não gostou.
"Tens orgulho nos teus erros!"
Não sei, é possível, mas duvido que o orgulho
seja, ele mesmo, a qualidade positiva.
Positivo acho que é só reconhecer os erros;
chego a imaginar que se trata da própria ideia de bom de bem.
A mestra arregalou muito os olhos, sem falar.
Aliás, é o que leio na bíblia, no génesis,
quando o criador vai dizendo "que bom"
a cada coisa que cria, vai como que admitindo o erro.
A mestra serrou os dentes:
"O erro não é uma coisa positiva.
Não disseste absolutamente nada de positivo".
João Paulo Esteves da Silva in Tâmaras
edição, douda correria, 2016
2018-01-17
2018-01-15
creio nisto
Qual a diferença entre um homem e uma mulher que acasalam, esta engravida e deixa descendência, e duas aves, dois peixes, dois insectos ou dois mamíferos que acasalam, a fêmea engravida e deixa descendência? Nenhuma. Claro que o processo é diferente mas a essência é a mesma: somos indivíduos, desejamos e agimos em nome individual mas estamos apenas a servir a nossa espécie. Apaixonamo-nos, acreditando ser em vista da nossa felicidade individual mas isso não passa de uma armadilha para fazer com que a espécie sobreviva, tal como acontece com qualquer outra.
2018-01-13
[...] à laia de manifesto alternativo ao das 100: queridos homens, nós, feministas, que não vos odiamos, que gostamos de sexo, estamos com a liberdade e queremos estar convosco. Resta saber onde vocês estão.
Aqui está um repto que eu assino por baixo, embora ressalve o seguinte: Isto não é uma questão de feminismo ou feminismos - porque há vários - e muito menos de vitimização. Até porque ela está presente, de modos diferentes, é certo, em elementos de ambos os sexos.
Há uma nova consciência social de que uma mulher não pode estar sujeita a tudo e vivê-lo em silêncio. Isso não é confundir assédio com sedução. Não vale a pena querer nivelar tudo.
Há uma nova consciência social de que uma mulher não pode estar sujeita a tudo e vivê-lo em silêncio. Isso não é confundir assédio com sedução. Não vale a pena querer nivelar tudo.
2018-01-12
Há qualquer coisa de profundamente doentio, mesmo perverso, em caluniar, num lamento que se julga a si próprio elevado, a linguagem como incapaz de ser o que é, linguagem. Mas, em rigor, o lamento tem origem numa pretensão que lança um voto sobre a linguagem incapaz de reconhecer e de experimentar o que ela é, não uma coisa, não uma pedra nem árvore nem estrela nem homem nem mulher, mas desejo de dizer.
Por isso, mistério é que haja o dizer, não o indizível. O indizível aponta para uma tensão que o dizível transporta, não é um estranho à palavra, pelo contrário, a palavra concentra e guarda, às vezes petrifica de tão glorificado, um movimento, uma promessa, uma inquietação, inerentes a ela mesma e a que só ela pode acudir, que só ela pode engendrar.
Maria Filomena Molder,
Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais
Relógio D'Água
2018-01-11
calma, eu sei que isto não é a descoberta da pólvora, mas anote-se
Querer percepcionar o mundo através das Tvs, jornais, redes sociais etc., é como experimentar contemplar o mar olhando para um aquário.
2018-01-10
Elas quiseram mesmo dizer, importunar?
Que as mulheres têm de ser mais autónomas, completamente de acordo, mas importunadas e coagidas, tenham lá juizinho!
Adenda:
Leiam, por favor, este post no Ouriquense.
Adenda 2:
Mais um texto de opinião clarificador. E não, condenar o assédio não é nenhuma campanha contra os homens. Nem põe todas as mulheres em qualquer peanha. Não vele a pena mistificar para não dialogar e mudar comportamentos.
Que as mulheres têm de ser mais autónomas, completamente de acordo, mas importunadas e coagidas, tenham lá juizinho!
Adenda:
Leiam, por favor, este post no Ouriquense.
Adenda 2:
Mais um texto de opinião clarificador. E não, condenar o assédio não é nenhuma campanha contra os homens. Nem põe todas as mulheres em qualquer peanha. Não vele a pena mistificar para não dialogar e mudar comportamentos.
im·por·tu·nar
-
Conjugar
"importunar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/importunar [consultado em 10-01-2018].
verbo transitivo
1.
Incomodar, enfadar, ser molesto a.
2.
Causar transtorno a.
3.
Perseguir insistentemente ou com obsessão.
=
MOLESTAR
"importunar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/importunar [consultado em 10-01-2018].
2018-01-09
2018-01-08
2018-01-07
Quem passa por este blogue, quase de certeza segue o do Henrique, mas por mil e uma razões, quero destacar o seguinte:
Eis um balanço que está por fazer, o das mulheres que foram assassinadas em 2017 por seus maridos ou namorados, vítimas de um amor sem fundamento, algumas reiteradamente agredidas ao longo dos anos, executadas das mais diversas e cruéis formas depois de tortura prolongada. Foram mártires de uma causa que o Deus das igrejas não reconhece, tão ágil que sempre foi a relegar a mulher para o plano da subjugação. Presas ao matrimónio, escravas do prazer masculino, condenadas à castidade, as mulheres que nascem servas e servas têm de morrer. Que crimes terão cometido? De que males padecerão para que se justifiquem acórdãos de juízes a desculpabilizar os agressores? Mártires de uma praga cultural, civilizacional, essas mulheres que ousaram ser humanas morreram não para que as esqueçamos, mas para que nos lembremos diariamente da maldição há muito sobre nós lançada. Não poderão morrer mudas, para sempre silenciadas, como se tivesse sido por nada o que sofreram.
2018-01-06
da calma e do silêncio
Quando eu morder a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano,
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Conceição Evaristo
(ler mais aqui)
Quando eu morder a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano,
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Conceição Evaristo
(ler mais aqui)
2018-01-05
2018-01-02
2018-01-01
2017-12-30
elegia
já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja
Alberto Pimenta, in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'
2017-12-29
são palas, senhor
Taxar as actividades dos partidos implicaria taxar pessoas. Os partidos não são um ente, como a Igreja, por exemplo, são pessoas, grupos de pessoas.
lido aqui
2017-12-28
2017-12-21
2017-12-20
oh, suprema ironia
Confrontada, numa reunião de trabalho, com a exposição de alguém que me pedia ajuda para concretizar o sonho de uma vida, apontei-lhe o caminho da burocracia. Com a suavidade possível e com clareza, fui-lhe enumerando os procedimentos e as diferentes entidades que teriam de se pronunciar sobre a viabilidade do que pretendia realizar. Senti-me uma idiota. Realista, mas idiota.
2017-12-19
que o absurdo, mesmo em pequenas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia-a-dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia-a-dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou nenhuma.
Nós queremos ser o aleijado nas ruas,
a pedir esmola, a esbardalhar-se frente aos nossos olhos.
Queremos ser o pai desempregado que não sabe que Natal há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia,
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.
Alexandre O'Neill
n.19/12/1924-m.21/08/1986
2017-12-17
2017-12-16
que falta de discernimento
Não comento o caso concreto, (por total desconhecimento), nem a validade do juízo (pela mesma razão), mas a redutora observação de que "uma mulher auto-suficiente e determinada se protegeria a si e aos filhos".
Esta observação, só me leva a pensar, que quem a profere pode ser alguém muito inteligente, mas não sabe nadinha da vida e muito menos das dinâmicas da violência doméstica e das suas vítimas.
2017-12-14
OS ANOS SÃO SEMPRE OS RESPONSÁVEIS
Os anos deviam convocar a esta mesa
defraudada pela técnica
uma lição das coisas que fosse mais amável.
Com alguma beleza nos desastres
do tempo
e daquilo que hoje por pobreza de espírito
chamamos o destino.
Com toda a mecânica fantasmática da memória.
Com as imagens singulares nas retinas
de outrora,
esses cavalos soberbos, erguidos contra os anos
e a relinchar as suas músicas
antes do abate.
Mas eu revejo o álbum dos anos e tudo são figuras
de folclore,
já não sinto vergonha em dizê-lo,
como escreveu o Drummond, minha matéria
é o nada.
Pior que isso, foi o nada.
Eu e as lentes. Pensei que elas fossem os olhos
da ciência de ver, frias, mas que soubessem medir
a distância entre o prazer e os simples
acidentes do sexo.
Agora que uma névoa se espraia panorâmica
e muda à minha volta
e tudo me obriga a consultar
o facultativo.
Sempre me deixei levar pela cabeça
nas águas mais impróprias em que braços e pernas
me arrastavam junto ao que eu chamaria amor
e seria só sangue em desequilíbrio.
Eu soprava forte nessa arte pneumática
criada pelo desejo
e o ar, menos que o ar, levava tudo.
Repito: hoje o que procuro é a síntese do nada.
E alguma palavra antiga, escura
e melancólica,
que me traga, oculta, certos soluços de alma.
Já desisti dos teóricos, além de chatos
são duma vaidade insuportável.
Prefiro o ingénuo.
E neste Natal ainda sou capaz de ir beijar, disfarçadamente,
o pé ao Menino.
Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Assírio & Alvim
#imagem - Isabela Ginanneschi
2017-12-13
estamos irreconhecíveis
(imagem-Enzo Sellerio)
Escreve Miguel Real, na "Nova Teoria do Pecado" - Ed. D. Quixote:"Como é possível fundar uma civilização sobre uma categoria negativa como o pecado? Entre as várias respostas possíveis, uma recebe o acordo deste ensaio: porque existe antropologicamente no homem um sentimento de culpa, difuso e inconsciente, originado pela incapacidade de vencer definitivamente o mal e o medo por este criado: as quatro fontes do mal (carência, sofrimento psíquico, dor física e morte) e o medo como a mais sólida das emoções primárias."
Presentemente, e perante as mais diversas suspeitas e até acusações, o que mais se proclama é uma consciência limpa e tranquila. Será esta a característica base dos "nórdicos do séc. XXI"?
2017-12-10
E danço um tango com você
eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.
eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.
tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.
toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.
penso nas normalidades desses senhores
ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada
uma maria como todas as outras, pronta pra violação.
maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas
eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.
Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.
toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.
penso nas normalidades desses senhores
ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada
uma maria como todas as outras, pronta pra violação.
maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas
eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.
Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)
O assédio e a violência doméstica têm progredido sob o manto do silêncio. O silêncio envergonhado e o silêncio cúmplice.
Romper esse manto nebuloso, indignar-se e manifestar-se contra preconceitos ignorantes que atravessam todo o tecido social, e se manifestam até em instituições que deveriam ser exemplares.
2017-12-06
Assisti ontem a esta conversa sobre as raízes judaico-cristãs. Soube-me a pouco, sobretudo pela narrativa do frei Fernando Ventura, para quem a dúvida se resume a uma dimensão transitória de regresso à fé.
janela indiscreta
As "novas" tecnologias fornecem os meios para que sejamos uma súcia de mirones maledicentes. Alegremente vivemos nisto.
2017-12-05
2017-12-04
vale a pena ler
O corpo da mulher “provoca a incontrolabilidade masculina”, ou seja, “é
desculpável que os homens se descontrolem perante a rejeição de uma
mulher ou a possibilidade da perda do acesso à mulher”, explica a
socióloga. “Isto é visível em muitas das nossas decisões judiciais.
Lembro-me de um acórdão muito recente de um incendiário que teve uma
pena suspensa e uma das argumentações era que ele estava bastante
perturbado porque a mulher se tinha divorciado dele.” Este desconforto,
frustração e potencial comportamento agressivo de alguns homens perante
um não da mulher remetem-nos para as questões interrelacionadas do
consentimento e da masculinidade hegemónica, que são centrais para
descodificar as raízes do assédio e da violência de género no geral.
“Uma das componentes da masculinidade hegemónica é a não-aceitação do
não”, aliada “à crença de que assediar é um elogio”, nota Conceição
Nogueira. Forçar a intimidade não é sedução nem flirt; é
assédio. “A pessoa diz que não, mas é para se fazer de difícil, portanto
deixa tentar mais duas ou três vezes, mais quatro ou cinco”,
exemplifica Conceição.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.
2017-12-01
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