2018-05-19
2018-05-17
2018-05-16
dizem
Dizem
que depois dos 30 as mulheres envelhecem depressa
mal humoradas
padecem de males nunca antes pensados
não se resignam
e sofrem ao comparar-se com as rosas murchas
pétalas caídas, a beleza a finar-se,
ou então resignam-se
e viram os espelhos
preferem serões na meia-luz
fogem das vidraças
até dos charcos de água
quando há lua cheia.
Dizem que
depois dos 30 as mulheres
aprendem a fazer amor
e a sua ansiedade espanta
ávidas de orgasmos
ninfomaníacas
são substitutas em camas alheias
mulheres fáceis
ou então começam a secar
enojadas e receosas
dos seus desejos (ávidos, urgentes)
têm falta de homem diz-se.
Putas ou reprimidas
vem a dar no mesmo. É o que se diz.
Giovana Pollarolo (Peru, n. 1952), tradução de Soledade Santos
daqui
2018-05-15
2018-05-13
inexoralvelmente
volto a Húmus: É a essa ninharia que é a vida, a que deito as mãos com desespero. A vida é nada - é esta cor, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo.
Sem o verbalizarmos - tudo o que pudéssemos dizer seriam banalidades circunstanciais, sabíamos que ela tinha descoberto o segredo. E tinha feito de todos nós beneficiários dele.
Há seres assim, que vão muito além das suas circunstâncias. Foi com esta confiança que nos consolamos, mutuamente, nos últimos dias, e com a memória dela continuaremos, sabendo que fomos testemunhas da vida de uma grande mulher.
(Eu vou sentir muita falta das tuas histórias...e do teu carinho, querida C.)
2018-05-09
2018-05-06
2018-05-05
é isto
“Todos somos um poço de contradições. A realidade que conhecemos é rala e
reles. As pessoas que não têm dinheiro para acabar o mês, os soldados
na guerra... Parecendo que não, é um dado quotidiano. Há uma música de
fundo, mas é uma música de guerra, de conquista, de luta pelos recursos
do planeta. É essa a nossa ralidade. É nessa realidade que a gente vive e
contra a qual temos de afirmar o nosso eu; temos de reagir. Isto é
profundamente político."
Manuel Resende entrevistado por Isabel Lucas in Público
2018-05-02
Retrato de Mulher Triste
Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.
Cecília Meireles in Poemas (1942-1959)
temos de mudar
Diz também que em Portugal ainda persistem o estigma e os preconceitos associados às doenças mentais.
Sim. A maior parte das pessoas ainda estão convencidas de que nas doenças mentais não há nada a fazer. Se falar até com pessoas em altas posições no Ministério da Saúde [e outros organismos] encontra muitas que estão convencidas de que não há muito a fazer. E, se tiverem alguém na família [com doença mental], têm vergonha em falar disso. Entre os profissionais de saúde mental o estigma é muito grande também. Até entre os doentes… Há muitas pessoas que têm doenças mentais que não vão tratar-se porque têm vergonha.
José Caldas de Almeida in Público
2018-05-01
a ler os outros
Ousar pensar é resistir e saber decifrar os mecanismos, sempre em
mudança, da manipulação. Mas não nos movimentamos na direcção da
complexidade nem da felicidade e o movimento dado a ver é um simulacro,
pois quase tudo apela à imobilidade, condição da mediocridade e da
manipulação. Os mais capazes, os mais audazes, aqueles, portanto, que
conseguem alcançar a consciência da força libertadora do conhecimento,
poderão acabar destruídos pela função praticamente elementar que a
linguagem tem já na sociedade; sentir-se-ão, esses que sabem o que
significa o pensamento complexo e dele fazem o insubstituível uso, a
falar sozinhos num deserto insuportável de ruído estéril onde a
comunicação recíproca é elementar e a crítica uma impossibilidade ou uma
ousadia punível. Um dia estaremos irreconhecíveis sem nos darmos conta
desse vazio, sem nos darmos conta dos significados.
Jorge Muchagato, aqui
pelo direito ao trabalho
Da caravana de emigrantes da América Central, que tentam entrar nos EUA. Foto Reuters-Edgar Garrido, Tijuana.
2018-04-30
a verdade não é espetacular
Há dias, participei como testemunha numa audiência em tribunal. Foi-me pedido, como é próprio do rito, que jurasse dizer apenas a verdade. Fi-lo com a consciência de que não tinha nada a omitir, ou razões para mentir.
Quando chegou a vez do advogado da ré me inquirir, o objectivo de apuramento da verdade, rapidamente se tornou um espetáculo de imaginação e ilusão, numa retórica de subversão de valores.
Não faço ideia de qual será a decisão. Apesar de, exaustivamente, ter tentado esclarecer quem tem de julgar, duvido que a clareza da minha exposição, e das restantes testemunhas que testemunharam no mesmo sentido, tenha mais força do que a fantasia argumentativa da defesa.
2018-04-26
aprende a falar - diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
Manuel Gusmão
2018-04-25
2018-04-23
2018-04-21
2018-04-20
Uma Beleza Dificílima
O silêncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.
A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.
Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.
Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.
Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.
Eduarda Chiote, in 'A Celebração do Pó'
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.
A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.
Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.
Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.
Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.
Eduarda Chiote, in 'A Celebração do Pó'
2018-04-19
2018-04-17
2018-04-14
2018-04-13
e o contraste
O silêncio não pertence a este lugar. Ninguém aqui sabe falar baixo. A voz humana deixa de o ser, tal é a sobreposição de sons. Passado algum tempo: só grunhidos aquilo que consigo ouvir.
do manuel a. domingos
2018-04-12
2018-04-10
uma palavra que se impõe
este blogue teve início, diria eu, noutra vida, andou meio descuidado, porque me deixei seduzir por outra rede social, e agora vive alimentado pelas palavras, imagens e músicas, de que me vou apropriando.
observo que há seguidores fiéis que me acompanham, quase desde o início deste atrevimento, e há novas pessoas a seguir o blogue. perante uns e outros, a minha perplexidade. e gratidão!
o poeta do dia - Sebastião da Gama, no 94º aniversário do seu nascimento
Poesia Depois da Chuva
A Maria Guiomar
Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.
Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.
Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!
E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...
(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)
Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos'
Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.
Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.
Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.
Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!
E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...
(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)
Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos'
2018-04-08
2018-04-06
2018-04-04
2018-04-02
DEDICATÓRIA
A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quanto todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é tarde – é tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia para entrarem no céu,
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram, aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma vida inteira…
Tasos Leivatidis - traduzido por Manuel Resende
via Bibliotecário de Babel
A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quanto todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é tarde – é tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia para entrarem no céu,
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram, aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma vida inteira…
Tasos Leivatidis - traduzido por Manuel Resende
via Bibliotecário de Babel
2018-03-29
2018-03-28
Os Justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
2018-03-25
Na primeira tentativa da flor há fealdade e ao mesmo tempo candura; depois, da noite para o dia uma gota de tinta como uma gota de leite. Basta que à névoa se misture o sol, para entreabrir, ainda informe. Todos os seres, antes de se vestir são abortos: têm medo de nascer belos.
Às vezes basta um dia. De um instante para o outro, poeira azul, entontecimento, sonho...
E isto não é só material. Neste mistério há certa dor, certa tontura, há até espanto. É um olhar que se abre para o mundo. Pela emoção a árvore comunica com o universo e manifesta uma vontade que triunfa sobre a dor inconsciente.
Entre a árvore, o céu e a terra há um compromisso de ternura.
Raúl Brandão in Húmus
2018-03-24
2018-03-23
"que bastava viver porosamente aberto"
A mentalidade científica quer que tudo tenha explicação, incluindo o maravilhoso. O que havemos de fazer, talvez seja assim: mas então, mal se aceita resignadamente esta suposta conquista total da realidade, o maravilhoso volta de pequenas coisas, o insólito resvala como uma gota de água ao longo de um copo de vidro e aqueles que merecem o comércio com essas presenças mínimas esquecem a sapiência e a consciência e passam-se para o outro lado e fazem coisas como por exemplo escutar a tosse de uma senhora alemã.
Em 1947, pouco depois do fim da guerra, Wilhelm Furtwängler dirigiu um concerto entre as ruínas de uma Alemanha derrotada, que a maioria dos seus vencedores começava a reabilitar a Oeste depois de a ter repudiado a Leste. Também Furtwängler tinha sido a princípio, repudiado, pela sua condescendência para com a me(ga)lomania de Adolfo Hitler, após o que parecia de bom-tom reabilitá-lo; assim terminam muitas guerras, o que explica que uns tempos depois voltem a eclodir, mas não é disso que vamos falar mas do concerto em que Yehudi Menuhin, convidado pelas forças de ocupação, tocou nessa noite o Concerto em Ré de Beethoven que o ilustre Furtwängler tirava uma vez mais da gaiola para mostrar o que era capaz de fazer com esse imperecível leopardo da música. A RIA (sigla da rádio Alemã) difundiu o concerto e além disso gravou-o com os meios técnicos disponíveis naquela altura, que não eram muitos. A gravação (disco, fio, fita magnetofónica?) ficou nos arquivos até que outro dia, mais de trinta anos depois, foi emprestada à rádio francesa que por sua vez a emprestou ao meu receptor sintonizado na France Musique. Um argentino em Paris ouviu assim uma orquestra alemã e um violinista judeu que tocavam sob a batuta de um morto: tudo isso, que teria sido perfeitamente incompreensível há menos de um século, fazia e faz parte do ordinário, daquilo que a ciência explica às crianças nas escolas; tudo isso era quotidiano, simplesmente premir uns botões e instalar-se num cadeirão.
Talvez Menuhin nunca tenha tocado o concerto de Beethoven como nessa noite; tinha razões de sobra para o fazer tão prodigiosamente no mesmo lugar onde tinham sido exterminados sete milhões de judeus e onde talvez alguns dos seus exterminadores estivessem sentados na plateia do teatro e aplaudissem freneticamente. Do concerto em si, do seu intérprete e do seu maestro só é possível falar com admiração, mas não é disso que falamos mas daquele instante, creio que no segundo andamento, em que um pianíssimo da orquestra deixa passar uma tosse, um único golpe seco e claro de tosse que não se repetiria, uma tosse de mulher, a tosse de uma senhora que qualquer cálculo de probabilidades definiria como uma senhora alemã.
Durante mais de trinta anos essa pequena tosse anónima tinha dormido nos arquivos da rádio; agora reiterava o seu diminuto fantasma em milhares de ouvidos que escutavam um concerto noutro tempo e noutro espaço. Impossível saber quem tossiu assim nessa noite; nenhuma ciência, nenhum cavalheiro Dupin podia determinar a sua origem. Sem a menor importância, sem o mais pequeno significado, essa tosse repetiu-se multiplicada por infinitos microfones para voltar a cair instantaneamente no nada; mas alguém que porventura tenha nascido para medir as coisas assim, com mais força do que as coisas grandes e duradouras, ouviu essa tosse e algo nele soube que o maravilhoso não tinha morrido, que bastava viver porosamente aberto a tudo o que habita e alenta entre o concreto e o definível para resvalar para o outro lado onde, de repente, na enorme massa catedralícia de um concerto beethoveniano, a breve tosse de uma senhora alemã era uma ponte e um signo e uma chamada. Quem era essa mulher, onde se sentou nessa noite, ainda está em viva em qualquer parte do mundo? Porque é que essa tosse faz nascer estas linhas noutro tempo, debaixo de outro céu? Até quando vamos continuar a acreditar que o maravilhoso não é mais do que um dos jogos da ilusão?
Julio Cortazár, 1979 in Papéis Inesperados
Edição Cavalo de Ferro
Talvez Menuhin nunca tenha tocado o concerto de Beethoven como nessa noite; tinha razões de sobra para o fazer tão prodigiosamente no mesmo lugar onde tinham sido exterminados sete milhões de judeus e onde talvez alguns dos seus exterminadores estivessem sentados na plateia do teatro e aplaudissem freneticamente. Do concerto em si, do seu intérprete e do seu maestro só é possível falar com admiração, mas não é disso que falamos mas daquele instante, creio que no segundo andamento, em que um pianíssimo da orquestra deixa passar uma tosse, um único golpe seco e claro de tosse que não se repetiria, uma tosse de mulher, a tosse de uma senhora que qualquer cálculo de probabilidades definiria como uma senhora alemã.
Durante mais de trinta anos essa pequena tosse anónima tinha dormido nos arquivos da rádio; agora reiterava o seu diminuto fantasma em milhares de ouvidos que escutavam um concerto noutro tempo e noutro espaço. Impossível saber quem tossiu assim nessa noite; nenhuma ciência, nenhum cavalheiro Dupin podia determinar a sua origem. Sem a menor importância, sem o mais pequeno significado, essa tosse repetiu-se multiplicada por infinitos microfones para voltar a cair instantaneamente no nada; mas alguém que porventura tenha nascido para medir as coisas assim, com mais força do que as coisas grandes e duradouras, ouviu essa tosse e algo nele soube que o maravilhoso não tinha morrido, que bastava viver porosamente aberto a tudo o que habita e alenta entre o concreto e o definível para resvalar para o outro lado onde, de repente, na enorme massa catedralícia de um concerto beethoveniano, a breve tosse de uma senhora alemã era uma ponte e um signo e uma chamada. Quem era essa mulher, onde se sentou nessa noite, ainda está em viva em qualquer parte do mundo? Porque é que essa tosse faz nascer estas linhas noutro tempo, debaixo de outro céu? Até quando vamos continuar a acreditar que o maravilhoso não é mais do que um dos jogos da ilusão?
Julio Cortazár, 1979 in Papéis Inesperados
Edição Cavalo de Ferro
a leitora imperfeita
Agarrei no ar...
Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.
Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.
Ruy Cinatti
2018-03-21
2018-03-20
2018-03-18
2018-03-16
exactamente
A situação espiritual do nosso tempo — como se dizia outrora — deve
muito a este exército de soldados da eloquência, mobilizados para uma
marcha fútil e exuberante de frases e frases que, de certo modo, nada
dizem. “De certo modo, nada”: esta expressão podia ser um tique de
linguagem usado por estas milícias de jornalistas, intelectuais,
professores e políticos em reciclagem.
António Guerreiro, no Público
2018-03-10
Que por Ti Perdi
O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.
Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.
A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.
Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.
A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.
Joaquim Manuel Magalhães, in 'As Escadas não têm Degraus'
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.
Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.
A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.
Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.
A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.
Joaquim Manuel Magalhães, in 'As Escadas não têm Degraus'
2018-03-08
Dia Internacional da Mulher
Na vizinha Espanha, as mulheres manifestam-se e fazem greve. Ainda bem, por elas e por todas as mulheres que se sentem diminuídas na sua condição feminina.
2018-03-07
sítios
Enquanto os patos deslizam na suavidade das águas
o meu pensamento mergulha
em busca do mistério que me sustém
2018-03-06
2018-03-04
nem tudo o que luz é ouro
Praticamos alguns gestos generosos porque queremos o bem daqueles a quem se destinam, ou para sermos admirados e aceites?
2018-03-03
2018-03-02
O
enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais
desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. O
ser humano tem uma raiz por sua participação real, activa e natural
na existência de uma colectividade que conserva vivos certos
tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.
Seria vão
voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. É uma
ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição
entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada,
não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo,
dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não
temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do
passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as
necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.
Simone Weil, O Enraizamento
2018-02-27
O meu pai deixou em poemas, palavras sobre o amor, sobre o tempo, sobre a morte, sobre tantas coisas, sobre o cosmos presente num quotidiano errático. Minha mãe desenhou caminhos para a liberdade, mostrou-nos, aos quatro, a força e a determinação da alegria, da vontade, da coragem. Transmitia-nos uma energia enigmática, funda, irrecusável. Era esta uma das suas faces. Era uma generosidade que não queria retorno. Silêncio. Ensinou-nos o que não se explica, o intraduzível em palavras, talvez em coisa nenhuma, uma condição de humanidade em aberto, onde o futuro é vislumbrado pela curiosidade e pela criatividade. Mostrou-nos a arte da vida, mesmo nos momentos mais duros e difíceis. Deixou-nos a dignidade maior.
Duarte Belo, aqui
2018-02-26
2018-02-23
2018-02-22
Por defeito ou feitio nunca valorizei os sinais religiosos exteriores, quer para expressar a minha religiosidade ou a de outrem. Nos dias que correm muito menos. Mas esta notícia inquieta-me. Se fosse alguém a pretender impor os crucifixos a minha perplexidade seria idêntica.
Manifestação de interesses, considero o Ricardo Alves uma pessoa inteligente, por quem tenho simpatia (que restou do tempo em que trocávamos galhardias ateus/crentes, quando a bloga fervilhava de discussão e emoção a rodos).
acontece
Ouço
os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a
igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou
para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas,
explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos,
obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu
discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.
2018-02-20
2018-02-18
morreu Maria Teresa, a mulher que o poeta amou
[...]
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém [...]
do poema "Elogio de Maria Teresa", Ruy Belo
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém [...]
do poema "Elogio de Maria Teresa", Ruy Belo
2018-02-17
2018-02-16
2018-02-14
Frei Bento Domingues, a demonstrar que há vozes "desalinhadas" na Igreja, mesmo dentro da hierarquia.
A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?
É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!
daqui
A nota do patriarca é um passo acertado com os tempos atuais ou é um passo atrás?
É um passo que não devia existir. É o casal quem deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!
daqui
2018-02-13
2018-02-12
Há encantamentos que não se explicam. Trago o Nuno Bragança no coração, sem nunca o ter conhecido ou sequer visto, apenas pela leitura do que dele foi publicado e pelas memórias da Joana Lopes. No blogue hoje está a partilha de mais uma memória e o link para este documentário.
precisamente
Solidão
Que venham todos os pobres da Terraos ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!
Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!...
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
2018-02-10
2018-02-09
2018-02-08
Como dizia o outro "o amor é fodido" e ser bispo católico também o é. Alertada pelas notas dos jornais fui à fonte para compreender o contexto. Nada de novo. O divórcio, entre a ortodoxia e o corpo, o sexo, as alegrias e dores dos homens e mulheres contemporâneos, mantém-se. Para mim, é semelhante a um ruído que ouço muito ao longe, mas não causa qualquer perturbação. Fiquem na deles e sejam felizes.
2018-02-07
A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa,
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa,
mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
que ontem significavam alguma coisa.
Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
Judith Herzberg
#imagem - Helena Almeida
2018-02-05
voltemos à vaca fria
Um artigo bastante equilibrado da Fernanda Câncio:
Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com
subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de
fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer
num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro
cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte -
não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o
caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é
um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar,
meus senhores? [artigo completo]
2018-02-04
Dia de Descanso
Hoje reservo o dia inteiro para chorar
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário
E choro choro porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado
Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!
Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser
E choro de coragem isto é
as lágrimas hão-de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio
Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo
Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um
Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam
e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico
Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro
Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo
Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar
E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco
Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente
Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos
Fernando Lemos in "Teclado Universal"
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário
E choro choro porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado
Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!
Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser
E choro de coragem isto é
as lágrimas hão-de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio
Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo
Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um
Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam
e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico
Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro
Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo
Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar
E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco
Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente
Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos
Fernando Lemos in "Teclado Universal"
2018-02-03
2018-02-01
Desterro
Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta,
bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as coisas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais do trem…
João Guimarães Rosa, do livro “Magma”.
Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, ridícula e honesta,
bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta…
Coagulada em preto,
a noite isolou as coisas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar-mais do trem…
João Guimarães Rosa, do livro “Magma”.
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